I Festival de Jogos e Lazer de Rua

Soraia Chung Saura e Ana Cristina Zimmermann, professoras da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP; Daniel Cobra e Silva, mestrando na EEFE

Por - Editorias: Artigos
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Ana Cristina Zimmermann – Foto: Arquivo pessoal
Soraia Chung Saura – Foto: Arquivo pessoal
Daniel Cobra e Silva – Foto: Arquivo pessoal
Ao longo do segundo semestre de 2017 a Escola de Educação Física e Esporte da USP organizou o I Festival de Jogos Tradicionais e Lazer de Rua em conjunto com a Escola Municipal Desembargador Amorim Lima. As ações, desenvolvidas por alunos da EEFE-USP e professores da escola, culminaram no evento que aconteceu no dia 8 de dezembro de 2017, com 800 crianças do Ensino Fundamental I e II.

Segundo a Unesco (2009), jogos e brincadeiras tradicionais são considerados patrimônios imateriais da humanidade. A Unesco ressalta que “a prática de jogos tradicionais promove a saúde global”. De fato, o que parece ser o ethos dos jogos e brincadeiras tradicionais é este diálogo corporal que revela a humanidade que nos atravessa, independentemente de aspectos geográficos, sociais, culturais, entre outros. Brincar e jogar, uma linguagem comum a todos nós.

No dia do festival e na análise de diferentes materiais de campo realizados ao longo dos últimos dez anos pelo Grupo de Estudos Pula, percebe-se que o jogo tradicional e o brincar espontâneo preservam de fato elementos estruturantes do humano em magníficas reproduções de imagens corporais. Uma pintura grega retrata o movimento de um menino jogando pião na idade antiga. Sua imagem em movimento é a mesma de meninos e meninas no Brasil e no mundo hoje. Incrivelmente e sem aparente contato uns com os outros, surgem os mesmos gestos[1]. As cenas se repetem em escolas, ruas, vielas, num jogo que historicamente existe desde tempos remotos, arremessado e arremessando com a mesma efusividade braços e olhos de garotos e garotas atentos. O repertório dos jogos tradicionais configura-se assim como um grande elo com a nossa natureza humana, “promovendo a saúde global” na medida em que renova no corpo individual imagens de nosso repertório biocultural. Podem promover em experiência vivida aspectos míticos e corporificar a memória coletiva humana. Criadores de brinquedos e games já identificaram este potencial. No caso do pião, pode-se mencionar atualizações do objeto que se tornaram verdadeiras “febres” entre as crianças, não por acaso, como o blay-blade e o spinner.

Compreende-se o jogo e o brincar como um diálogo[2]. Ético, pois que regras são criadas e recriadas em intermitentes debates, que requerem sobretudo a presença integral naquilo que fazem as crianças. Com horizontalidade, pois não há barreiras sociais, de idade, de gênero, de espaço, de quem ensina ou de quem aprende: diante dos materiais, todos sentem-se desafiados e se irmanam no jogo e no brincar.

Pois assim que surgem os materiais – piões, petecas, bolinhas de gude, pneus, cordas, elásticos, etc. – inicia-se entre meninos e meninas um incêndio de animação. Quem nunca viu quer aprender, quem já sabe ensina. Os educadores são as próprias crianças e os brincantes são todos. Surgem novas elaborações por todos os lados, cenas preciosas, surpreendentes. De fato, os objetos que circundam a prática de jogos e brincadeiras tradicionais não requerem grandes investimentos e são como rastilhos de pólvora, provocadores materiais deste repertório humano, como já nos lembrava Bachelard.

Segundo a Unesco (2009), jogos e brincadeiras tradicionais são considerados patrimônios imateriais da humanidade. A Unesco ressalta que ‘a prática de jogos tradicionais promove a saúde global’.

Em Caldas, município de Antioquia, Colombia, vemos uma cidade inteira se lançar às ruas anualmente para brincar e jogar. Idealizado pelo mestre José Humberto Gomez, o Festival de Juegos Recreativos Tradicionales de La Calle encontra-se em sua 36ª edição e sua expertise inspira a realização deste evento em São Paulo. Naquele festival, praticantes experientes são referência para crianças e jovens. Portanto, neste primeiro evento, Anselmo Gomes, campeão nacional de Ioiô esteve presente. Deslumbrou meninos e meninas.

Em uma cidade onde o contato com a infância torna-se cada vez mais reduzido, onde a paisagem está de fato cada vez mais “adultecida” na medida em que vemos, cada vez menos, meninos e meninas brincando e jogando nos espaços públicos, o festival sai dos muros da escola e ocupa as ruas do entorno. “A invisibilidade das crianças nos espaços públicos das cidades revela uma sociedade que prioriza o interesse dos adultos, com pouca visibilidade para os direitos das crianças.” [3] Assim, na cidade, é importante ganhar o espaço da rua. Para que as crianças e jovens percebam que a rua é também um lugar de possibilidades, espaço comum de todos nós.

Pensa-se atualmente, diante destas investigações, que os jogos tradicionais se tornem políticas públicas. Pensa-se no Brincar não apenas para crianças pequenas, mas também para as grandes. E na Educação Física e no Esporte como potencializadores de experiências não somente de aulas e treinos, mas de toda uma relação com o corpo, com o espaço, com a rua, com a escola, com a diversidade. Com a cidade inteira por fim. As pesquisas, os trabalhos de campo, as interlocuções com parceiros nos revelam corpos expressivos e dispostos a isso.

Os spinners são deixados de lado diante de um pião – fieiras firmes entre os dedos. Um funcionário se dispõe a ensinar o jogo dos seus tempos de menino. Forma-se uma roda vibrante, os piões giram nos ares, enigmáticos, espetaculares, voadores. Vê-se que quando uma criança brinca e joga, de forma muito autêntica, estreita os laços com o mais humano de cada um de nós.

[1]  No texto “Olhares por dentro do Brincar e do Jogar, atualizados no Corpo em Movimento” (MEIRELLES, ECKSCHMIDT, SAURA, 2016, disponível em https://www.pulaeefeusp.com.br/publicacoes) apontamos o olhar fenomenológico para os gestos contidos no brincar, nos jogos, nas manifestações populares, e sua importância para identificar recorrências e relações com a natureza humana a partir de imagens, narrativas e mitos.

[2] ZIMMERMANN, A.C., and J. MORGAN. 2011. “The possibilities and consequences of understanding play as dialogue”. Sport, Ethics and Philosophy 5 (1): 46–62.                                                       Disponível em: https://www.pulaeefeusp.com.br/publicacoes

[3] Fleury, L. “Como trazer as crianças de volta para as ruas da cidade?” 2017. Disponível em: http://conexaoplaneta.com.br/blog/como-faz-para-trazer-as-criancas-de-volta-para-as-ruas-da-cidade/

 

 

 

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