Helena Morley, a duas vozes

Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e Literatura Brasileira da Escola de Comunicações e Artes da USP

Por - Editorias: Artigos
Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail

.

Jean Pierre Chauvin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

Nunca pensei que um homem vestido direito furtasse

(Domingo, 16 de julho de 1893).[1]

 

No Brasil, alguns acontecimentos marcam o ingresso e, por vezes, a permanência de determinada obra, mais ou menos acomodada ao nosso estreito cânone literário: a quantidade de edições que acumula; a fortuna crítica existente a respeito do volume; a sua inclusão na lista de livros para os exames vestibulares.

A julgar pela recepção calorosa de leitores ilustres, a exemplo de João Guimarães Rosa, e pelos belos ensaios que a obra já recebeu, Minha Vida de Menina parece ter cumprido as etapas que a habilitaram para que fosse, a partir deste ano, obra clássica que “caiu na Fuvest”.

O livro consiste do relato, durante três anos, de uma adolescente nascida na região de Diamantina – filha de um minerador inglês e de uma brasileira de ascendência portuguesa. Escrito de modo aparentemente solto e ligeiro, o diário abrange o período de 1893 a 1895 e revela a personalidade contestadora de Alice Dayrell Caldeira Brant, antes de adotar o pseudônimo de Helena Morley. Como percebeu Alexandre Eulálio, “Os apontamentos da mocinha mineira possuíam de fato insofismável ar de família. Um ar tanto mais difícil de resistir porque aliado a certa petulância pouco conformista, que os tornava ainda mais provocantes”.[2]

Acredito que a sua biografia parcial possa ser lida sob tripla perspectiva: 1. O imaginário juvenil de uma jovem que conviveu com sua numerosa família anglo-brasileira, de permeio com os resquícios da escravidão no País; 2. O ambiente devoto, prosaico, comercial e minerador de Diamantina e região; 3. Os fatores estéticos que conferem uma dicção peculiar à obra.

Não se trata, portanto, de um romance – com começo, meio e fim bem determinados –, já que a narrativa está “A meio caminho do documento e da ficção”[3]. Os registros da adolescente são mais ou menos regulares (em média, há duas ou três entradas por semana), mas o seu caráter é episódico.

Quero dizer, Minha Vida de Menina respeita as margens do gênero memorialístico: é escrito em primeira pessoa, tem caráter confessional e revela as contradições, a partir da óptica privilegiada de quem conviveu com diversas camadas da sociedade diamantina, com direito a pessoas de hábitos estranhos: “[…] há uma casa onde nunca se abriu uma janela. Só de tarde se abre a porta e sai de dentro Moisés de Paula com um sobretudo muito velho, de mãos atrás das costas, a passear pela cidade” (Quarta-feira, 19 de julho de 1893).

Por vezes, o registro prioriza detalhes aparentemente insignificantes, cujo sentido é dado linhas (ou dias) depois: “Mestre Joaquininha mora numa casa pegada com a nossa pelos fundos; o muro é o mesmo. Ela sempre deixa os cachos de banana ficarem amarelinhos para apanhar” (Segunda-feira, 9 de outubro de 1893).

A despeito de ter sido escrito por uma jovem disciplinada e estudiosa, que realizava diversas tarefas dentro e fora do ambiente doméstico, os relatos de Helena Morley sugerem uma personalidade forte e sensível, ora insatisfeita com os artifícios de uma amiga exageradamente bem-comportada (“Chininha inventou que estava triste pela morte de Jesus Cristo e foi ler alto a Paixão para vovó como se faz no Colégio, e nós todas tivemos de ficar escutando aquilo” – Domingo da Ressurreição, 2 de abril de 1893)…

Como percebeu Alexandre Eulálio, “Os apontamentos da mocinha mineira possuíam de fato insofismável ar de família. Um ar tanto mais difícil de resistir porque aliado a certa petulância pouco conformista, que os tornava ainda mais provocantes.”

…Ora a relaxar determinadas convenções da própria família: “Como é bom vovó morar na Chácara! A casa é tão perto da Igreja do Rosário que Senhor Bispo, vendo como ela é gorda e pesada, lhe deu licença de ouvir a missa da janela do quarto, e quando é para comungar o padre leva a comunhão para ela” (Quinta-feira, 4 de maio de 1893).

A autora, que admitia não “ser santa”, desabafa: “Não passei no primeiro ano só e só por falta de sorte e mais nada. No exame de Geografia quase ninguém deixa de colar. Todas nós preferimos fazer sanfona; é tão mais fácil. Fiz todas com o maior cuidado e fui para o exame com o bolso cheio delas”. O desdobramento do episódio quase se adivinha: “Seu Artur Quiroga desce do estrado, fica perto de minha mesa e pus a mão na mesa. Ele disse: ‘Vamos, continue!’. Eu estava nessa hora descrevendo o Rio Amazonas” (Sábado, 9 de dezembro de 1893).

Em contraste com a dura lida de estudante, é manifesto o apreço de Helena pela avó, espécie de fio condutor da narrativa: “Vovó é muito inteligente. Ela nunca estudou e nunca vi abrir um livro; só de orações. Depois de velha é que ela veio para a cidade e como ela compreende tudo bem! Interessa-se por tudo que eu lhe conto; olha minhas notas, coisa que mamãe nunca fez. Ela me conta a vida de moça e eu gosto muito de ouvi-la” (Domingo, 14 de janeiro de 1894).

Por um lado, o tom adotado pela protagonista revela o modo feliz e ingênuo com que ela parecia enxergar as pessoas e coisas: “As páginas iniciais do diário, onde não faltam a privação e o trabalho, têm alguma coisa de utopia”, sugere Roberto Schwarz[4]. Nas palavras da protagonista: “Eu gosto muito de todas as festas de Diamantina; mas quando são na Igreja do Rosário, que é quase pegada à Chácara de vovó, eu gosto ainda mais” (Terça-feira, 30 de maio de 1893).

No que diz respeito aos elementos de ordem estética, pelo menos desde a década de 1970 existe a hipótese de que o livro tenha sido “retocado” pela autora, antes de sua primeira edição, em 1942. Feito raro, em nossa literatura, o livro foi reeditado nas décadas de 1960 e 1970, pela mesma editora; em 1998[5], ganhou nova roupagem, acumulando numerosas reimpressões.

Em 1997, Roberto Schwarz escreveu um ensaio de maior fôlego sobre a obra, em que dialogava com a introdução de Eulálio. Uma das consequências é que a hipótese da reescritura do livro pela Helena adulta ganhou mais força. Questão que, possivelmente ampliou o debate em torno da obra e multiplicou as intervenções que rediscutiram o lugar que o diário passou a ocupar na constelação literária nacional.

No que diz respeito aos elementos de ordem estética, pelo menos desde a década de 1970 existe a hipótese de que o livro tenha sido “retocado” pela autora, antes de sua primeira edição, em 1942.”

Para o leitor em seu primeiro contato com a obra, talvez importe mais o teor dos relatos singelos; o retrato divertido e contrastante das numerosas personagens; a descrição da paisagem mineira; a rotina de trabalho dos pais e empregados da casa; a compulsão da narradora por quitutes, na forma de salgados e doces feitos por Tia Aurélia; os saborosos biscoitos servidos pelas Tias Inglesas; a postura grave e severa do Pai, que passava apenas os finais de semana com a família; as múltiplas crendices de Mamãe; as visitas de Seu Benfica; o papel das “negras”, “pretinhas” e “crioulos” nas tarefas e rotinas da casa; as festividades da Igreja; o agito, durante a época de Carnaval:

“Como foi bom o carnaval este ano! Penso que o carnaval é sempre o mesmo, mas todo ano eu acho aquele melhor do que o outro. O que deu maior animação ao carnaval este ano foi a presença de Seu Luís de Resende. Ele trouxe do Rio muita fantasia e enfeites bonitos que nunca tivemos aqui (Quarta-feira de Cinzas, 27 de fevereiro de 1894)”.

O que haveria em comum, no seu relato, com o universo vivenciado pelos jovens de hoje? O espírito questionador; a impaciência da adolescente cheia de vida diante das histórias recontadas inúmeras vezes pelos mais velhos (“Já notei que conversa de velhos é sempre a mesma coisa” – Quinta-feira, 23 de março de 1893); o inconformismo, diante dos castigos (ainda que raros) aplicados pela Vovó; a dificuldade para aprender a língua paterna; o emprego de pequenos artifícios para lograr o que a garota mais desejava.

Querem ver outra coisa que temos em comum com os adolescentes de outros tempos? Os retratos impiedosos de alguns adultos: “Seu Guilherme dentista é o homem mais enjoado do mundo. […] Ele não é capaz de falar nada sem diminutivo. ‘Pode fazer o obséquio de abrir a boquinha para eu ver o dentinho?’ E fica nisso de boquinha, dorzinha, dentinho, que não acaba mais” (Quinta-feira, 21 de março de 1895).

Mas, tratemos das diferenças… Evidentemente, a adolescente do final do século XIX tinha mais tarefas que lazeres; além disso, vivia cercada pelos cadernos e livros – algo um pouco diferente, em nosso tempo, quando o smartphone tornou-se objeto-símbolo da geração que nasceu, cresceu (e, em parte, encolheu) com os dispositivos eletrônicos de uso massivo e pessoal.

“Seu Guilherme dentista é o homem mais enjoado do mundo. […] Ele não é capaz de falar nada sem diminutivo. ‘Pode fazer o obséquio de abrir a boquinha para eu ver o dentinho?’ E fica nisso de boquinha, dorzinha, dentinho, que não acaba mais” (Quinta-feira, 21 de março de 1895)

Um bom exemplo disso está no relato de 8 de agosto de 1895: “Nós temos agora na família um jornalzinho chamado A Casca, inventado por meu primo Lucas. É para descascar os outros. Eu não sei como esse primo não estudou, pois ele é engraçado e parece inteligente. Todos na família têm de escrever no jornal”.

À medida que acompanhamos as peripécias de Helena Morley, vamos nos apegando a ela, seus familiares e amigos. O livro conquista nossa empatia. Os relatos, que prometiam manter a tonalidade do início (1893), ganham em maturidade e desenvoltura. No âmbito estético, isso também significa que o diário da jovem autora não está isolado, como se fosse aventura produzida graças à sorte ou ao destino.

O leitor não precisará de maior esforço para logo perceber que o elemento anedótico, o sabor das conversas, as palavras inconfessáveis são elementos que caracterizam o livro, alçando-o à categoria dos diários e biografias ficcionais mais populares, em nossos dias: “Faço hoje quinze anos. Que aniversário triste!” (Quarta-feira, 28 de agosto de 1895).

Ao reviver o tempo e recriar os espaços em que viveu Helena Morley, o leitor sentirá que a pulsação da autora tem outro ritmo. Trata-se, afinal, “[…] de um livro para ser lido sem pressa. Produto de horas de lazer. Feito para se pegar e se deixar sem mais aquela. No mesmo à-vontade em que foi composto”[6].

Se não, vejamos:

“Nós todos, os meninos e meninas da Boa Vista, depois que acabamos de jantar e que meu pai e tio Joãozinho despacham os trabalhadores, a coisa que mais gostamos é ficar descalços, com o pé no molhado, subindo e descendo o desbarranque da lavra, procurando diamantinhos e folhetas de ouro, pois tudo meu tio compra (Sábado, 21 de janeiro de 1893)”.

Mas, afinal, por que um livro escrito em linguagem simples e disposto em breves relatos, demandaria maior atenção dos leitores? É porque Minha Vida de Menina exala a energia e a postura crítica de sua autora: “Penetrante nos juízos, exata e espirituosa nas análises, o isolamento dessa mocinha que ainda não descobriu a solidão satisfaz-se, na ausência de melhor interlocutora, em conversa consigo mesma”.[7]

A essa altura, o leitor porventura desconfie que não conto tudo do pouco que sei. É que o livro de Helena Morley merece ser visto não apenas como uma leitura por obrigação, tampouco como atividade de cunho pragmático – voltada meramente ao desempenho dos vestibulandos, como etapa para a sua carreira acadêmica e profissional.

Será oportuno compartilharmos um pequeno grande segredo da jovem Helena: o papel do pai e de alguns professores em sua carreira de escritora: “Em pequena[,] meu pai me fez tomar o hábito de escrever o que sucedia comigo” (Nota à 1a Edição). A seu turno, “O Professor de Português aconselhou todas as meninas a irem se acostumando a escrever, todo dia, uma carta ou qualquer coisa que lhes acontecer” (Sábado, 18 de fevereiro de 1893).

Reparemos neste outro perfil, em que a percepção do mestre combina a pessoa e seu ofício: “Dr. Teodomiro é um dos professores de que nós todas gostamos na Escola. Eu desejava conversar um dia com ele, mas não sei como hei de conseguir isso. Na Escola ele é tão retraído que não dá liberdade nenhuma às alunas, apesar de ser o único que nunca reprovou nenhuma. Ele é diferente dos outros em tudo” (Domingo, 27 de outubro de 1895).

Os retratos comprovam a sensibilidade da retratista. Porém, não nos enganemos. Sob a forma branda do diário, e o tom quase ingênuo da narradora, há muito do Brasil assimétrico, de outro tempo, feição e lugar. Portanto, não se trata apenas de discutir literatura e qualidade estética; mas de repensar o modo de vida e a concepção das coisas, sob a ótica multifacetada de uma galeria de personagens.

Em suma, não se deixa o diário de Helena Morley da mesma forma como se chegou até ele. Justamente por isso, a popularidade de Minha Vida de Menina não deixa de ser um feito curioso, tendo em vista “a conjunção infeliz e inconfundível que se havia estabelecido, nas letras da época, entre a crise do Brasil antigo, o contorcionismo estilístico e as ofuscações subalternas do cientificismo”[8], na preciosa síntese de Roberto Schwarz.

Não será preciso dizer mais: este singelo convite ao leitor se encerra por aqui [Quarta-feira, 27 de setembro de 2017].

 

[1]     Helena Morley. Minha Vida de Menina. 4a reimpressão. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017, p. 65.

[2]     “A História Natural de Helena Morley: Minha Vida de Menina”. In: _____. Livro Involuntário. Rio de Janeiro: UFRJ, 1993, p. 35 [Originalmente, o texto acompanhava a primeira edição do livro em Portugal, no ano de 1959].

[3]     Idem, ibidem, p. 36.

[4]     “Outra Capitu”. In: _____. Duas Meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 50.

[5]      Primeira e segunda edições estiveram a cargo da Livraria José Olympio. De 1998 em diante, o livro passou para os cuidados da Companhia das Letras. O romance foi traduzido para o francês e o inglês e, em 2004, inspirou o filme homônimo, dirigido por Helena Solberg.

[6]     Alexandre Eulálio, 1993, p. 37.

[7]     Idem, p. 41.

[8]     “Outra Capitu”, p. 47.

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail