Entre velhos e jovens: conflitos geracionais e ressentimento

Kimi Tomizaki é professora de Sociologia da Faculdade de Educação da USP

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Kimi Tomizaki – Foto: Arquivo Pessoal

A disputa em torno da ampliação, manutenção ou retirada do acesso a direitos sociais, civis e políticos tem pautado o debate público no Brasil, o que evidentemente intensificou-se ao longo do devastador governo Temer, cujas “contrarreformas” vão desenhando, com velocidade impressionante, um cenário de crescente vulnerabilidade para todos(as) os(as) trabalhadores(as), especialmente para os(as) mais pobres.

Em que pesem as inúmeras contradições dos governos petistas e o fato de que determinados direitos também foram fragilizados nesse período – poderíamos citar a sanção, ainda que parcial, da lei antiterrorismo, que abriu a possibilidade de criminalização de um amplo leque de ativismos políticos –, é inegável que os governos Lula e Dilma foram marcados por avanços do ponto de vista das políticas sociais, de emprego e geração de renda que, por meio de diferentes mecanismos, permitiram a mobilidade social ascendente de uma parte significativa da população.

No entanto, estudos apontam que tal mobilidade é de “curta distância” e ainda persiste, portanto, um alto índice de desigualdades de oportunidade e de resultados. Evidentemente que não se trata aqui de realizar um balanço desses governos, o que já vem sendo amplamente discutido. Este breve texto pretende, tão simplesmente, contribuir com uma reflexão sobre um “efeito subterrâneo” dos processos de avanço ou retirada de direitos: os conflitos geracionais.

As relações intergeracionais são, por essência, contraditórias e é impossível determinar para cada “encontro geracional” quais sentimentos darão o tom e as cores predominantes dessa situação. Da solidariedade ao confronto, o fato é que as gerações não se encontram em um vácuo histórico, político ou social. Ao contrário, são as próprias transformações nesses planos que precipitam o surgimento de novas gerações.

É precisamente nesse sentido que o debate sobre o acesso a alguns direitos fundamentais tem uma forte implicação com o fenômeno geracional, porque a ampliação, ainda que momentânea, ou a retirada radical de direitos produzem gerações que tiveram e terão acessos absolutamente desiguais a um conjunto de direitos determinantes para se alcançar determinados “lugares” no mundo social.

A noção de geração é marcada por uma multiplicidade de sentidos que remetem à amplitude que tal conceito pode assumir no âmbito dos estudos da área: de gerações históricas e políticas às gerações estritamente familiares, por exemplo. Em todos os casos, de modo sumário, o que define um conjunto geracional são as experiências comuns capazes de criar laços (profundos) entre determinados indivíduos que se sentem irremediavelmente ligados por um destino comum, o que se desdobra em uma dada forma de conceber o mundo e seu lugar nele.

Nesse sentido, a definição das experiências comuns compartilhadas é uma operação fundamental para o estudo das gerações, e tais experiências estão condicionadas tanto à conjuntura política, social e econômica na qual indivíduos e grupos estão inseridos quanto à posição social ocupada por eles em uma dada sociedade. E se experiências, de diferentes ordens, são capazes de amalgamar modos de vida, destinos e formar quadros de percepção e avaliação da realidade dos membros de diferentes gerações, não seria exagero dizer que as vivências ligadas ao acesso ou à negação de determinados direitos são basilares na definição dos modos de pensar e agir das gerações visto que constituem seu “universo de possíveis”, ou seja, um conjunto de expectativas em relação ao futuro, que orienta investimentos (objetivos e subjetivos) de ordem individual, familiar e coletiva.

Desse modo, em períodos nos quais se acelera o processo de retirada de direitos, constituímos em diferentes dimensões sociais (da família, escola, ao trabalho e universidade) grupos que, tendo acesso a direitos desiguais, enfrentarão mais dificuldade para estabelecer laços de solidariedade, acirrando os processos de disputa e a produção de ressentimentos. No centro dessa discussão, encontram-se duas dimensões fundamentais da vida em nossas sociedades: o acesso à escolarização e ao mercado de trabalho.

No que tange aos setores mais vulneráveis da classe trabalhadora, uma das contradições fundamentais produzidas pelo lulismo situa-se precisamente no aumento das expectativas das novas gerações, via alongamento da escolarização, que contrasta com as reduzidas possibilidades de inserção profissional em postos de trabalho compatíveis com esses investimentos escolares e com as expectativas tanto dos jovens quanto de suas famílias.

É preciso considerar que no Brasil o alongamento da escolarização, sobretudo o acesso ao ensino superior, foi constituído por meio de um intenso processo de segmentação do sistema de ensino, que hoje é dividido entre instituições que dão acesso a diplomas com “valores” absolutamente diferentes, o que é facilmente identificável na hierarquização entre universidades públicas e privadas. Por outro lado, a melhoria dos indicadores educacionais no Brasil, nas últimas décadas, tem conduzido a um concreto crescimento da mobilidade educacional intergeracional, ou seja, ao aumento da média de anos de escolaridade de uma geração a outra e, consequentemente, a uma redução das desigualdades educacionais formais.

No entanto, de uma maneira geral, os estudos apontam que a mobilidade intergeracional de educação tem sido mais significativa do que a de renda, ou seja, a aquisição de diplomas não se converte automaticamente em renda, o que talvez já aponte para uma crescente inflação e desvalorização dos diplomas.

É nesse quadro pouco animador que diferentes gerações negociarão, se apoiarão ou se confrontarão diante da patente desigualdade de condições de estudo e trabalho a que tiveram acesso, e nesse encontro um ponto de forte tensionamento é o fato de que os mais jovens têm tido seu horizonte profissional e pessoal estreitado pela precariedade dos contratos de trabalho e instabilidade em relação ao futuro.

Em grande medida, esse é o cenário que encontramos atualmente nas universidades públicas com suas diferentes gerações de docentes e funcionários técnico-administrativos, o que nos impõe uma tarefa urgente de reflexão e ação a respeito dos impactos dessa situação sobre o imenso desafio de construirmos uma universidade pautada, ao mesmo tempo, pela excelência acadêmica, por práticas políticas transparentes e democráticas, responsabilidade institucional e solidariedade intergeracional.

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