Encontros com Vanzolini

Jurandir Renovato – SCS

Por - Editorias: Artigos
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Jurandir Renovato é editor executivo da Revista USP da SCS-USP, contista e crítico literário – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Aparentemente existem dois Paulo Vanzolini: um famoso, boêmio, autor de clássicos da música brasileira, como Ronda, Amor de Trapo e Farrapo, Cuitelinho, e de frases que se cravaram no nosso imaginário, como “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”; e um outro, bem menos popular, mais acadêmico, professor da USP, cientista renomado internacionalmente.

Os dois são fascinantes, cada um a sua maneira.

Meu primeiro contato com Paulo Vanzolini foi por telefone e acadêmico. A Revista USP estava elaborando um dossiê sobre O Brasil dos Viajantes e ele ficara de escrever um ensaio acerca da contribuição zoológica dos primeiros naturalistas que andaram por aqui. Ele mandou um texto imenso, um verdadeiro tratado científico, meticuloso, digno do grande zoólogo que era.

Em uma das tabelas do artigo algumas palavras estavam grifadas e outras não, o que chamou a atenção da revisora. Para tirar a dúvida – sobre o que, de resto, parecia ser apenas um lapso de datilografia –, liguei para a casa do professor, como sempre fazia em casos semelhantes, e expliquei o problema. Ele não se mostrou muito receptivo:

“Meu rapaz! Não mexa em nada!”.

Claro que aquilo me deixou chateado, afinal eu havia ligado justamente porque não me sentia no direito de alterar nada sem a sua autorização.

Na semana seguinte, relatei o episódio na reunião do conselho editorial da revista. Um dos conselheiros, que era colega do professor Vanzolini, o biólogo André Perondini, me disse para relevar:

“Ele é assim mesmo”, riu. “Quando conhecê-lo vai ver que é só fachada. Depois do expediente, ele destampa um garrafão escondido no fundo do laboratório, daqueles de éter, com etiqueta de caveira e tudo, e despeja cachaça nos copos de todo mundo.” E arrematou: “Aí é uma festa só!”.

Infelizmente não tive a oportunidade de visitá-lo em seu laboratório. Fui conhecê-lo pessoalmente muitos anos depois, quando ele já estava aposentado da USP; quando o seu laboratório passou a ser, exclusivamente, a mesa de bar.

Foi assim que o vi, pela primeira vez, na mesa do Bar do Alemão.

Para quem não sabe, o Bar do Alemão foi um reduto, na década de 70, tanto da nata do samba paulista como também de vários mestres da música brasileira, entre eles, três Paulos fundamentais: Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro e, claro, Paulo Vanzolini.

Nos anos 2010, o músico e compositor paulista Eduardo Gudin comprou o bar, com o intuito de resgatar o clima daquela época.

Liguei para a casa do professor, como sempre fazia em casos semelhantes, e expliquei o problema. Ele não se mostrou muito receptivo: ‘Meu rapaz! Não mexa em nada!’. Claro que aquilo me deixou chateado, afinal eu havia ligado justamente porque não me sentia no direito de alterar nada sem a sua autorização.

E deu certo. Você vai lá hoje e encontra gente da pesada, sempre disposta a dar uma canja, ou simplesmente conversar noite adentro sobre os velhos tempos, quando o bar chegou a ser frequentado até pela dupla de ouro do samba carioca – Cartola e Nelson Cavaquinho.

Mas até então eu não sabia nada disso. Eu apenas havia adquirido num sebo um livro do Paulo César Pinheiro. Um livro que me surpreendeu por dois motivos: primeiro por se tratar de uma coletânea de poemas de um dos maiores compositores desse país; e depois porque, na folha de rosto, estavam grafadas com caneta as iniciais “PC”.

Como o Gudin, dono do Bar do Alemão, foi parceiro do PC Pinheiro, julguei (ingenuamente) que talvez ele pudesse me dizer se a assinatura era de fato real.

Quando cheguei ao bar, num sábado à noite, o local estava tão cheio que só havia lugar na calçada.

Chamei o garçom e perguntei pelo dono. Logo apareceu um senhor muito simpático, se apresentando como sócio do bar. Disse que o Gudin não estava, mas se mostrou interessado pela minha história, e voltou para seus afazeres carregando o livro.

Eu já tinha emborcado uns dois ou três copos de chope quando o garçom veio avisar que alguém queria falar comigo no fundo do bar. Acompanhei-o por entre as mesas e corredores apinhados até que ouvi alguém dizer:

“Meu rapaz, sente-se aí.”

Eu já conhecia aquela voz e aquela expressão, mas o tom agora era outro, menos ranzinza, mais caloroso. Procurei um lugar para sentar, mas na única cadeira disponível repousava o seu indefectível chapéu.

Com um sorriso largo e bonachão, Paulo Vanzolini me disse para sentar ali mesmo. Obedeci. Coloquei o chapéu no colo e fiquei quietinho ouvindo a conversa, não sem deixar de notar o livro ao seu lado.

Na mesa havia um casal na faixa dos 70 anos – que depois soube ser de cantores –, a quem ele contava de forma bem histriônica, entre uma golada e outra no copo de chope (ele estava proibido pelo médico de beber cachaça), sobre uma noitada no Rio de Janeiro junto com Zé Keti e Aracy de Almeida.

A história era tão amalucada e divertida, e narrada tão despojadamente, que a cantora engasgava com a bebida a quase todo momento.

Quando terminou, ele se lembrou de mim. Ficou por um tempo folheando o livro e comentando “olha só, o Paulinho, quem diria?!”, e depois quis saber como eu tinha descoberto aquela “maravilha”. Seus olhos brilhavam tanto diante das páginas amareladas daquela brochura antiga que eu não tive alternativa:

“O livro é seu, professor.”

O cantor estranhou:

“Por que você o chama assim?”

Aquilo era a deixa que eu estava esperando.

“Ora, porque ele é professor da USP!”

E antes que eu pudesse ser interrompido pelo próprio, que esboçou um certo desconforto diante daquele “é professor”, ainda mais sendo dito assim de maneira tão brusca, continuei rapidamente:

“Inclusive nos falamos por telefone alguns anos atrás, quando a Revista USP publicou um texto seu no Brasil dos Viajantes. O senhor até ficou bravo comigo.”

Claro que ele não lembrou, pelo menos não de mim. Tentei puxar o fio de sua memória:

“Foi por causa de uns itálicos numas tabelas do artigo…”

Eu já conhecia aquela voz e aquela expressão, mas o tom agora era outro, menos ranzinza, mais caloroso. Procurei um lugar para sentar, mas na única cadeira disponível repousava o seu indefectível chapéu. Com um sorriso largo e bonachão, Paulo Vanzolini me disse para sentar ali mesmo. Obedeci. Coloquei o chapéu no colo e fiquei quietinho ouvindo a conversa, não sem deixar de notar o livro ao seu lado.

Então sobre a mesa caiu aquele silêncio que sempre cai quando a piada não foi entendida ou, pior, quando o assunto não está agradando. Quem me salvou, dessa vez, foi a cantora.

“O que é itálico?”, ela quis saber, já sem se preocupar com os engasgos.

E antes que eu tivesse a chance de responder, Vanzolini reabriu o sorriso:

“Ah! É aquela letrinha preguiçosa, que sempre fica deitada”.

Não podia haver definição melhor. Então ele pediu um violão e dedilhou os primeiros acordes de Alberto, uma canção meio crônica policial, sobre um sujeito para todos os efeitos pacato, mas que, depois de ir morar na casa da noiva, arruma uma confusão estrondosa com as vizinhas.

A canção termina ironicamente com os versos Porque Alberto/Foi morar na casa da noiva e não deu certo/Alberto era bom demais. Uma maravilha da música brasileira, que eu tive a honra de ouvir numa mesa de bar, segurando o chapéu de Paulo Vanzolini.

***

Algum tempo depois, tive a oportunidade de relatar o episódio para o próprio Paulo César Pinheiro, que adorou a história, mas me garantiu nunca ter assinado “PC” em livro algum. E até me enviou pelo correio, do bairro de Laranjeiras, onde mora no Rio, uma outra edição da coletânea de poemas, agora sim com seu autógrafo verdadeiro.

 

 

 

 

 

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