Em memória do professor Ruy Laurenti

Alexandre Chiavegatto Filho é professor do Depto. de Estatística de Saúde da Faculdade de Saúde Pública

Por - Editorias: Artigos
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Alexandre Chiavegatto Filho – Foto: Reprodução / Youtube / Coursera
O professor Ruy Laurenti (1931-2015) tem uma extensa lista de realizações acadêmicas, mas, para a maioria das pessoas que tiveram o prazer de conhecê-lo, esse não foi o seu maior feito.

O professor Ruy formou-se em Medicina pela USP em 1957, onde concluiu o seu doutorado e iniciou sua carreira docente. Transferiu-se em definitivo para a Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP no início da década de 70. Lá tornou-se professor titular em 1979 e chegou a diretor da FSP em 1985. Em 1990 foi vice-reitor da Universidade e, em, 1993 tornou-se reitor da USP. Ainda na USP, foi também seu primeiro ouvidor geral, cargo que ocupou até 2010. Em 2002, recebeu o título de Professor Emérito da USP, o único a ser agraciado com essa homenagem em um período de 24 anos.

Teve também uma importante atuação no CNPq, onde foi nomeado Professor Emérito em 2015, e na Fapesp, onde foi o representante da USP do Conselho Superior de 1993 a 2000. Na sua área de atuação, Estatísticas de Saúde, participou da concepção e implantação dos dois principais sistemas de informação em saúde, o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) e o Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc). Foi também o fundador e diretor do Centro Brasileiro de Classificação de Doenças, um ponto de referência para a qualidade da informação de saúde no Brasil.

Todo o esforço e trabalho do professor Ruy foi fundamental para hoje podermos dizer com confiança que as principais causas de óbito no Brasil são os cânceres (205.998 óbitos em 2015), as doenças isquêmicas do coração (111.863 óbitos em 2015) e as doenças cerebrovasculares (100.520 óbitos em 2015). Foi também graças à influência e liderança do professor Ruy que sabemos que o Brasil é um dos recordistas mundiais de nascimentos por cesarianas (55,5% em 2015). Em um mundo cada vez mais dominado por dados, o professor Ruy foi um pioneiro.

Porém, ao conversar com qualquer amigo ou orientado do professor Ruy, esses feitos acadêmicos nunca são a primeira coisa a ser mencionada. Eu sei disso porque tenho entrevistado pessoas próximas a ele por conta da homenagem que lhe será prestada no dia 15 de agosto, às 10h, no Anfiteatro Paula Sousa da FSP/USP. O que os amigos sempre mencionam em primeiro lugar é a sua generosidade e seu toque humano.

O professor Ruy era daquelas pessoas que você tinha que ser convencido, por outras pessoas, que ele era alguém importante. Lembro-me de quando eu era seu aluno de Iniciação Científica, em 2002, e ele estava prestes a receber um prêmio que eu não entendia muito bem o que significava (era o prêmio de Professor Emérito da USP). Mencionei para a sua secretária de muitas décadas, a dona Miriam, que eu precisava falar com ele sobre a minha pesquisa e que esse evento ia nos atrasar. Nesse momento, ela não aguentou, me puxou pelo braço e me disse: “Garoto, acho que você não entende direito a importância do professor Ruy, vem aqui que eu te explico”.

Eu de fato não entendia a importância do professor Ruy. Naquele momento, já aposentado, ele trabalhava literalmente no porão da FSP. Ele também tinha tempo para todo mundo, o que não condiz com a nossa imagem de pessoa importante. A diferença é que ele tinha tempo para todo mundo porque ele gostava de gente. O professor Ruy não procurava essas grandes homenagens que recebeu ao longo da vida, muito pelo contrário. Se você precisasse conversar, ele dispensava as formalidades e abria o seu sorriso fácil e convidativo, mesmo se você fosse um aluno de Iniciação Científica folgado.

Lembrar a memória do professor Ruy é cultivar um ideal de carreira acadêmica orientada pela humildade e generosidade. É, acima de tudo, entender que por maior que sejam as suas conquistas acadêmicas, no fim o que fica na memória dos seus amigos é o tamanho da pessoa que você era.

 

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