ECA 50 anos: o olhar de uma professora da década de 1970

Dulcilia Schroeder Buitoni – ECA

Por - Editorias: Artigos
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Dulcilia Schroeder Buitoni é professora titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP - Foto: Divulgação/Entrevendo
Dulcilia Schroeder Buitoni é professora titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Divulgação/Entrevendo

 

Estou aqui como professora dos primeiros tempos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Praticamente um ano e meio depois de me formar – fui aluna da primeira turma de Jornalismo da então Escola de Comunicações Culturais –, participei de uma seleção, em 1972. Comecei a dar aula de Jornalismo Especializado nesse mesmo ano, dividindo a disciplina com meu colega de graduação, Ethevaldo Siqueira. Já estava matriculada na pós-graduação em Teoria Literária da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob a orientação de João Alexandre Barbosa, orientação que se transformaria em grande amizade acadêmica e pessoal.

Em 1970, com o início dos cursos de Artes Plásticas e de Música, a faculdade adquiriu o nome atual: Escola de Comunicações e Artes. Ampliava-se o campo das artes, que já contava com os cursos de Cinema e de Teatro. A abertura do curso de Editoração, em 1972, foi uma das razões da necessidade de novos professores. Também dei aulas no curso de Editoração, mas o meu campo preferencial sempre foi Jornalismo. Na época, trabalhava na Editora Abril, na revista Intervalo, sobre televisão, que era dirigida pelo jornalista Milton Coelho da Graça, também diretor da revista Realidade. Suas reuniões de pauta eram verdadeiros workshops sobre jornalismo.

Ao mesmo tempo, eu era a jovem repórter de televisão, a estudante de pós-graduação que tinha aulas com Antonio Candido e Boris Schnaiderman e a professora iniciante que dava aulas para uma maioria de alunos muito mais velhos. A turma contava com muitos jornalistas profissionais, ao lado de alguns jovens estudantes, que se tornaram conhecidos e talentosos jornalistas, como Gisela Swetlana Ortriwano, Ciro Marcondes, Paulo Markun, Dilea Frate e Lillian Witte Fibe.

Nos anos 70, a ECA era muito visada por suas práticas inovadoras, por suas relações com as artes e por seus professores que lutavam pela democracia.

Anos 1970, anos de chumbo, em que os diretores da ECA eram docentes de outras unidades, porque não havia professores titulares da escola. Havia um clima de resistência e de enfrentamento político e a ECA, a mais nova faculdade da USP, era bastante vigiada. Professores não tiveram seus contratos renovados devido a suas posições ideológicas. A ECA era visada por suas práticas inovadoras, por suas relações com as artes, pelos seus professores que lutavam pela democracia. O grupo de jovens que iniciava a carreira docente juntou-se a profissionais consagrados e intelectuais, principalmente de cinema, teatro e jornalismo, para construir um novo campo universitário, o campo da comunicação.

Havia poucas faculdades de Jornalismo e de Comunicação no Brasil; tudo estava se construindo. Alunos e professores experimentavam pedagogias em áreas essencialmente interdisciplinares; as mudanças nos meios de comunicação pediam olhares engajados e críticos.

Anos 1970, anos da efervescência das comunicações e da formação da hegemonia televisiva. Os grandes jornais eram O Estado de S. Paulo e o Jornal do Brasil; o Jornal da Tarde inovava na edição de fotografias e de reportagens. A revista Veja, dirigida por Mino Carta, propunha novos modos do fazer jornalístico e ainda lutava por se firmar financeiramente; apresentava reportagens investigativas e era alvo da censura. No final dos anos 1960, tivemos algumas experiências marcantes no telejornalismo, como o Jornal de Vanguarda, da TV Excelsior. A TV Cultura apresentava A Hora da Notícia, telejornal que buscava profundidade e dava voz a depoimentos da população. Era dirigido por Fernando Pacheco Jordão, e depois também por Vladimir Herzog. Em 1º de setembro de 1969, começava o Jornal Nacional, da Globo, já trabalhando em rede, transmitindo simultaneamente para Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Brasília.

O campo da comunicação era, portanto, um setor em grande ebulição, com antigos modos de produção sendo alterados pelas transformações tecnológicas, no contexto de um cenário político opressivo.

O campo da comunicação era, portanto, um setor em grande ebulição, com antigos modos de produção sendo alterados pelas transformações tecnológicas, no contexto de um cenário político opressivo, que pedia atitudes de constante oposição.

Desejo salientar o grande companheirismo que havia entre os jovens professores e os docentes que haviam sido nossos mestres. O pesado clima político vinha de instâncias superiores, com listas censuradas de bibliografias e alguns chamamentos da diretoria para explicações.

Esse começo, em plena ditadura, não foi fácil. Tive a felicidade de conhecer Vladimir Herzog em 1975, pena que cerca de um mês antes de sua morte, apresentado pela minha querida amiga e ex-aluna Gisela Swetlana Ortriwano. Era hora do almoço, Herzog acabava de dar aula e eu simpatizei de imediato, imaginando que poderia trabalhar em conjunto com o novo colega, jornalista admirado que estava trazendo inovações no telejornalismo da TV Cultura. Infelizmente essa possibilidade não se realizou.

Mesmo com as perseguições, demissões e prisões de professores, ainda nos restava ânimo para resistir, cada um a seu modo. A importância do campo da comunicação nas relações sociais e a vontade de produzir informação que ajudasse no caminho da democracia nos estimulavam a continuar. Havia ainda a paixão pela construção do conhecimento num espaço que convidava à interdisciplinaridade, num espaço em que comunicações e artes podiam interagir.

Vou lembrar alguns mestres que se tornaram meus colegas nesses anos 1970: Eduardo Peñuela, Virgílio Noya Pinto, José Marques de Melo, Sarah Chucid da Viá, Freitas Nobre, Thomas Farkas, Egon Schaden. E os novos colegas, como Ana Maria Fadul, que me deu muitas indicações para a pesquisa de pós, Sonia Luyten, amiga-irmã até hoje, Cremilda e Sinval Medina, Maria do Socorro Nóbrega; a amizade crescendo com os colegas da primeira turma: Jeanne Marie de Freitas, Jair Borin, Ismail Xavier, Maria Christina Barbosa de Almeida, Maria Dora Mourão, Johanna Smit, Alice Mitika Koshiyama. Mais tarde, mais colegas e amigos marcantes: Ana Mae Barbosa, Bernardo Kucinski.

A década de 1970 foi vivida entre preparação de aulas, pesquisas de mestrado sobre a fotonovela, reportagens com Milton Nascimento, Roberto Carlos, Gal Costa, Eva Wilma, reuniões com políticos da oposição, participação em Semanas de Jornalismo, nascimento de dois filhos, trabalho como redatora e editora em revistas femininas, análise da imagem da mulher na imprensa feminina brasileira para o doutorado, participação na greve de 1979 na USP, estudo sobre currículos de Jornalismo e de outras áreas da ECA. Muitas reuniões, muita discussão, muita produção de materiais jornalísticos em defesa da democracia.

Os primeiros anos como professora da ECA trouxeram momentos de aprendizado e de convivência com muita colaboração e amizade. Trouxeram também momentos de angústia e de tensão. Esses anos marcaram para sempre minha trajetória, me formaram como docente e pesquisadora e reforçaram a convicção, que vinha desde os tempos de aluna, de que artes e comunicações devem trabalhar em conjunto. Em vez de régua e compasso, a USP me deu letras e imagens para lutar por narrativas transformadoras.

Os meios de comunicação não são apenas instrumentos; hoje eles são elementos da midiatização da vida. Embora a realidade atual de globalização e de fluxo contínuo de informação e imagens contribua principalmente para a manutenção do status quo, ainda acredito na utopia inicial da ECA, ou seja, no jornalismo como forma de conhecimento e de transformação para uma vida de solidariedade e liberdade para todos.

 

O texto acima reproduz palavras da professora Dulcilia Schroeder Buitoni durante evento de comemoração dos 50 anos da ECA, realizado no dia 19 de outubro de 2016, no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, em São Paulo, quando ela foi homenageada como representante dos professores dos primeiros anos do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, ao lado do professor Wilson Bueno.

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