Donald Trump e a recuperação do sonho americano

Rafael Duarte Villa – FFLCH

Por - Editorias: Artigos
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Rafael Antonio Duarte Villa é professor de relações internacionais do Departamento de Ciência Política da FFLCH e do Instituto de Relações Internacionais da USP - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Rafael Antonio Duarte Villa é professor de Relações Internacionais do Departamento de Ciência Política da FFLCH e do Instituto de Relações Internacionais da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 8 de novembro deixa uma fila de perdedores imediatos dentro dos Estados Unidos. Perdem não só o Partido Democrata e sua candidata Hillary Clinton, mas também o próprio establishment do Partido Republicano, cujas principais lideranças foram abandonando Trump, antes e após a nomeação como candidato, e perdem também tanto o establishment financeiro de Wall Street, a quem Trump criticou tanto durante sua campanha por seu improdutivismo, os grupos de mídia liberal, especialmente os grupos nucleados no entorno do The New York Times. E, finalmente, perdem os grupos sociais defensores de minorias e de novos direitos, como casamento gay e direito ao aborto.  Ou seja, um grande outsider anti-elite tradicional chega ao governo dos Estados Unidos.

Esse fato leva a três questões especialmente importantes: como ele tratará com os perdedores internos; como administrará as promessas da campanha; e qual o impacto da eleição de Trump no núcleo de valores da democracia liberal ocidental? Em relação à primeira questão, em outras circunstâncias, leia-se no caso de eleição de outros presidentes, isso não era uma questão central, mas com Trump é.

Uma acomodação de interesses é possível, especialmente com os grupos políticos adversários dentro do Partido Republicano e com os grupos financeiros de Wall Street, porém essa acomodação não será possível para com todos os grupos, especialmente com os grupos sociais representantes de minorias e novos direitos. Trump terá que atender às demandas dos grupos domésticos internos, como os religiosos que votaram nele (60% do voto protestante, 52% do voto católico e 55% de outras religiões).

Tais grupos opõem-se fortemente a políticas pró-aborto, casamento gay e fronteiras abertas para imigrantes. Isso unido às próprias convicções pessoais e políticas de Trump explicitamente sexistas, homofóbicas e anti-imigrantes projetam um tenso conflito com alguns segmentos da sociedade americana.

Também é relevante perguntar como tratará com as promessas de campanha? Trump chega ao poder fazendo muitas promessas de mudanças tanto na política interna como na externa. Entre as mais ousadas, as de expulsar mais de 3 milhões de imigrantes ilegais, rever os programas de cobertura médica para pessoas mais pobres, uma das bandeiras sociais da administração atual, gerar empregos para os brancos das regiões desindustrializadas, trazer de volta as empresas americanas de lugares como o México e a China, e cortar 4,4% em impostos da classe média.

Como ele [Trump] tratará com os perdedores internos; como administrará as promessas da campanha; e qual o impacto da eleição de Trump no núcleo de valores da democracia liberal ocidental?

No âmbito externo ele se compromete a uma posição mais dura com a China, a quem acusa de trapacear com sua moeda para favorecer as suas exportações, e uma relação mais amigável com a Rússia. Trump fez promessas também pouco positivas em relação a governos do mundo em desenvolvimento, em que se incluem governos liberais e conservadores da América Latina, de quem exigirá uma revisão em termos mais proveitosos para os Estados Unidos dos Tratados de Livre Comércio.

Pode ser que boa parte das promessas de campanha não se realize. É possível que muito do discurso chocante do candidato Trump vire pragmáticas barganhas domésticas e internacionais com ele presidente.

Porém, múltiplas promessas que foram feitas dirigiam-se a grupos sociais específicos.  E esses grupos exigiram que uma boa parte dessas promessas de campanha seja cumprida, gerando prejuízos a alguns e rendimentos para outros, dentro e fora dos Estados Unidos.

Como cumprir a promessa de dinamizar o emprego entre brancos trabalhadores de regiões industriais dos Estados Unidos, promessa na qual Trump tem pouco espaço para barganhar pragmaticamente? A resposta pode vir dos vizinhos do NAFTA.

A esse tratado Trump propôs impor nos produtos vindos do México, que são produzidos justamente por companhias americanas instaladas no país asteca, um imposto de 35%. Baixo imposto na importação de produtos do México e migração de empresas americanas para o México e a China foram identificados pela estratégia eleitoral de Trump como as principais causas da desindustrialização e desemprego de trabalhadores brancos do cinturão industrial do Centro-Oeste americano — Michigan, Ohio, Wisconsin, mais a Pensilvânia, estados nos quais Trump ganhou.

Os eleitores de Trump desses lugares muito provavelmente não acreditam que os mexicanos sejam os vilões que Trump pintou no seu discurso de campanha, mas acreditam que a fórmula pensada por Trump seja eficiente para diminuir o desemprego no cinturão industrializado dos Grandes Lagos. E estão confiantes em que Trump não os decepcionará e os ajudará a reviver o sonho americano.

 

Não foi por acaso que a chanceler alemã Angela Merkel colocou o cerne do problema ao lembrar a Trump que o core da identidade ocidental são os valores de “democracia, liberdade, respeito pela lei e pela dignidade humana, independentemente da ascendência, da cor da pele, da religião, do sexo, da orientação sexual ou das tendências políticas”.

Há uma terceira questão que preocupa muito, sobretudo as lideranças ocidentais de democracias liberais, e que, no fundo, é o problema político mais substantivo e profundo trazido pela eleição de Trump: como fica a identidade política ocidental?

Nunca um presidente americano chega ao governo com um discurso que é tão distante dos valores liberais democráticos ocidentais – no aspecto político chocando a tradição humanista do nacionalismo secular e inclusivo americano; no aspecto econômico prometendo protecionismo, ao mesmo tempo em que critica a globalização; e no aspecto social com um discurso discriminatório de grupos de culturas diferentes, especialmente latinos, negros e muçulmanos.

Não foi por acaso que a chanceler alemã Angela Merkel colocou o cerne do problema ao lembrar a Trump que o core da identidade ocidental são os valores de “democracia, liberdade, respeito pela lei e pela dignidade humana, independentemente da ascendência, da cor da pele, da religião, do sexo, da orientação sexual ou das tendências políticas”. E “com base nesses valores” ela sentenciou: “Eu ofereço ao futuro presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, uma cooperação estreita”. Porém, o que acontecerá se Trump se tornar um outsider sem controle, levando ao limite as promessas de campanha, muitas das quais são alheias à identidade política ocidental e   às tradições seculares da democracia americana?

As democracias são conservadoras por natureza, dizia Alexis de Tocqueville em seu Democracia na América. Seus grupos sociais, velhos e novos, temem as mudanças que lhes fazem diminuir os ganhos que com aquelas adquiriram. Uma coisa é inegável: para além dos dilemas gerados com a chegada de Trump ao poder, ele foi altamente eficiente e inteligente em interpretar e traduzir esse sentimento no discurso do “faça a América grande de novo”.

As palavras de uma imigrante latina, que forma parte do grupo dos novos incluídos temerosos das perdas, referenda o sucesso da estratégia de Trump: “Vivi o processo de entrar num país legalmente. Voto em Trump porque sou totalmente contra a imigração ilegal. Em nenhum país se aceita isso, por que não nos Estados Unidos?”. Embora Hillary tenha ganho esmagadoramente entre os latinos, 29% deles votaram na recuperação do sonho americano pregada por Trump.

 

 

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