Desvendando o mistério da autoajuda: esboço para uma tese

Jurandir Renovato é crítico literário e editor executivo da Revista USP

Por - Editorias: Artigos
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Jurandir Renovato – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Na Universidade tudo pode virar tese, tudo é potencialmente assunto para uma tese ou para um projeto de tese. Você caminha pelo campus e pode até sentir as ideias crepitando como madeira fresca no forno a lenha. Para o bem ou para o mal, é verdade, pois nem sempre a qualidade e o rigor científicos caminham de mãos dadas com tamanha efervescência intelectual.

Basta dar uma olhada no banco de teses e dissertações defendidas anualmente (seja o da Capes ou o do SiBi) para perceber – ao menos superficialmente, pelos títulos – o quanto a natureza humana é pródiga em procurar pelo em ovo. Ou constatar, com pompa e circunstância, que de fato ele não existe.

Conta-se que na banca de doutorado de uma certa pupila de dois eméritos professores da USP, ao término da defesa, cuja plateia, boquiaberta, não entendera patavina, um deles virou para o outro e soltou esta pérola: “Que monstro nós criamos”.

Pensando nisso, também criei, para consumo (e divertimento) próprio, uma espécie de alter ego “monstruoso”. Às vezes o imagino entrando na minha sala carregando um calhamaço de dois quilos de papel. Não confia nas mídias eletrônicas, presumo. Apresenta-se como Antonio Saraiva Gabaritto ou – como prefere meu amigo Evaldo Piolli – professor Tony Gabaritto. Mas não diz o que leciona nem onde. Tem estatura média, cabelos pintados, e usa um terno dois números acima do seu tamanho, com gravata. Pequenas gotas de suor escorrem por sua testa.

O volume que sopesa com certa dificuldade não é sua tese ou dissertação, nem mesmo um texto que talvez pleiteie publicar ou ser lido por mim. Na verdade aquilo tudo consiste num compêndio de fichamentos de leitura, que é a base de um projeto a ser apresentado sabe-se lá onde. Esse sabe-se lá onde é o único motivo de ele estar ali, na minha frente.

O projeto é estupendo: entender as engrenagens que movem essa máquina de fazer dinheiro que é a indústria da autoajuda. E assim descobrir o seu segredo. O método é simples: ler o maior número possível de livros desse tipo, estudá-los, anotá-los, cotejá-los e retirar deles um denominador comum, a sua estrutura mínima. Dito assim parece fácil, e eu lhe ofereço a cadeira, já suspeitando de que ele tenha muito a falar sobre essas leituras. Não há como escapar. Então lhe ofereço também os meus ouvidos.

Os livros tinham de tudo um pouco, do self existencialista ao darwinismo social, passando pela numerologia, astrologia, parapsicologia, grafologia, ufologia, maçonaria, macrobiótica, tarô, runas, i-ching, reiki, acupuntura, feng-shui, naturalismo, naturismo, neo-hipismo, zen-budismo, epicurismo, confucionismo, eneagrama, new-age, A arte da guerra para vendedores, para gerentes de banco, para executivos, O pequeno príncipe à luz da moderna administração, Shopenhauer para uso no comércio, a caverna de Platão, método Cooper, dietas transcendentais, da lua, da lentilha, do doutor Atkins etc.

Alguns eram pura charlatanice pseudofilosófica, outros beiravam a panfletagem obscurantista. Muitos eram mesmo religião disfarçada, como o professor já previra de antemão, com títulos neutros como Conhece-te a ti mesmoConstrua seu próprio destinoA hora é agora etc. Então, assim que se deparava com termos como “perdão”, “resignação”, “culpa”, “verdade absoluta”, “poder do espírito”, “da palavra” etc., o professor Gabaritto imediatamente parava de ler e punha o livro de lado numa pilha de rejeitados.

Mas o fio que separava a autoajuda propriamente dita do esotérico era realmente muito tênue e a maioria acabava fazendo uma salada com todas as religiões e seitas e tradições ocultistas e terapias e técnicas de relaxamento como a ioga, o shiatsu, o kundalini, a dança sufi, a massagem tântrica, a meditação dos monges trapistas, beneditinos, tibetanos etc.

Havia os babilônios, os celtas, os ciganos, os egípcios, os xamãs, os alquimistas, cabalistas, bruxas wicca, templários, poderes das pedras, das flores, das cores, dos quatro elementos, do quinto elemento, dos contos de fadas etc. Tudo convivia bem: deuses e demônios, anjos e gnomos, druidas e orixás, santos e guerrilheiros, a santa ceia e o ovo de Colombo, o monge e o executivo, Freud e Madame Blavatski, Quincy Jones e Rajeenish, Bill Gates e o Dalai Lama, Sherlock Holmes e Mãe Menininha do Gantois; também os dez mandamentos com os doze trabalhos de Hércules, a vigésima quinta hora com o sexto sentido, o quarto caminho com a terceira visão etc.

Na Universidade tudo pode virar tese, tudo é potencialmente assunto para uma tese ou para um projeto de tese. Você caminha pelo campus e pode até sentir as ideias crepitando como madeira fresca no forno a lenha. Para o bem ou para o mal, é verdade, pois nem sempre a qualidade e o rigor científicos caminham de mãos dadas com tamanha efervescência intelectual

A terminologia era um espetáculo à parte. Desde que o autor estivesse tratando, por exemplo, da sincronicidade junguiana, tudo passava a ser sincrônico. Um fulano está caminhando pela rua, tropeça e cai estatelado no asfalto. Daí alguém dá uma gargalhada vaporosa que lembra a cena de um filme que o fulano assistiu numa longínqua tarde modorrenta. Pronto – é sincrônico!

Arquétipo também servia para designar quase tudo. Veja este exemplo: no interior da Groenlândia um jovem esquimó afia a lança que herdou de seu pai. Ele a prepara com muito cuidado. Depois caminha quilômetros até encontrar um buraco no gelo. Está nervoso. É a primeira vez que vai enfiar sua lança numa foca sozinho. Nesse mesmo instante, do outro lado do mundo, num subúrbio de São Paulo, um rapaz pega um ônibus em direção a um prostíbulo do centro da cidade. Também é a sua estreia e está nervoso. Percebe a relação? Puro arquétipo!

Mais um exemplo: uma mulher jovem e bonita está lavando roupas no tanque a céu aberto. O sol está a pino. Ela não tem condições de comprar uma máquina de lavar nem de mandar instalar um telhado. Enquanto esfrega as cuecas do marido – um canalha (na opinião dela) que mais uma vez chegou bêbado de madrugada –, no que ela pensa? Que não aguenta mais a merda dessa situação arquetípica!

O carma budista era outra figurinha carimbada em quase todos os livros. E servia para qualquer situação. Holístico, psicossomático, chacras e o yin/yang taoísta idem. Força interior, autoestima, atitude, energia, pensamento positivo e desenvolvimento pessoal, então, nem se fala. Expressões latinas descontextualizadas como hic et nunccarpe diem e in medio virtus também faziam enorme sucesso. A palavra “motivação” o professor Gabaritto leu duas mil oitocentas e vinte e nove vezes, tem tudo anotado nas suas fichas.

A diferença entre o esotérico e a autoajuda propriamente dita é que na autoajuda sempre havia um elemento neutralizador da religião, na maioria das vezes “psicológico”, como gestalt, behaviorismo, psicanálise, psicodrama, William James, Reich, análise transacional, inteligência emocional etc.; mas podia ser também “científico”, como a física quântica, a relatividade, o big bang, a biologia molecular, a genética, a ecologia, a etimologia, a etologia, a teoria M, do caos etc.; ou “contemporâneo”, como universo virtual, ciberespaço, cibernética, robótica, semiótica, neurolinguística, mitologia pessoal, gerenciamento de recursos humanos, gestão empresarial etc.; ou “artístico”, como laboratórios de teatro, Leonardo da Vinci, letras de música pop, exercícios vocais, de dança, de mímica, de escrita livre surrealista etc.

Tudo servia para aparar as arestas e deixar bem claro que não era uma questão de fé, mas de caminhos de apoio. E todos sempre iam desaguar na mesma praia da felicidade, do autoconhecimento, do sucesso pessoal, da capacidade de ser melhor que os outros, se dar bem na vida, influenciar pessoas, livrar-se de outras, livrar-se das drogas, da bebida, agregar valor, bons empregos, amigos, saúde, dinheiro etc. etc. etc.

O professor Gabaritto lia e pensava. Se tivesse de definir a autoajuda, diria que é um mistério cercado de et cetera por todos os lados.

Ele estava sentado no tapete da sala com os livros espalhados em torno de si. Pegava um exemplar, abria numa página previamente indicada com um pedacinho de papel e grifava um trecho, às vezes só uma frase ou palavra, com um lápis de ponta grossa. Em alguns também fazia anotações nas margens. De vez em quando se empolgava tanto que tinha de ir diminuindo a letra para caber no espaço da margem, a letra ia ficando cada vez menor e menos legível até praticamente desaparecer e tornar-se apenas o gesto de mover o lápis sobre o papel. Quando fosse fichar o livro, mais tarde, o gesto também teria desaparecido.

Ele não sabia exatamente o que procurava, mas, se procurava, é porque havia algo. Um silogismo primário, uma lógica cartesiana! E assim, pensava ele, se tudo desse certo – e o universo, claro, conspirasse a seu favor –, em breve desvendaria o mistério da autoajuda, numa tese defendida sob os auspícios de algum obscuro departamento da Universidade. Ele só não sabia qual. Infelizmente, para seu azar (e sorte da Fapesp…), eu também não.

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