Da inevitabilidade do plágio

Jurandir Renovato é jornalista e editor executivo da “Revista USP”

Por - Editorias: Artigos
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Jurandir Renovato – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

 

Para Eliete Negreiros

Algumas pessoas são como camaleões literários. O Paulão, por exemplo. Depois que leu Alta fidelidade, do Nick Hornby, por um tempo ficou difícil não dividir qualquer coisa em cinco categorias: os cinco melhores livros, os cinco melhores discos, os cinco melhores isto ou aquilo. Tal qual o protagonista do romance que virou filme com John Cusack no papel principal, ele não conseguia acender um cigarro sem pensar nas cinco melhores tragadas que dera na vida.

Ficou tão viciado nisso que chegou a cometer uma imprudência. Numa mesa de amigos, supostamente longe dos filhos (e das mães deles), propôs uma relação das cinco melhores mulheres com quem eles, homens cujas esposas supostamente não podiam ouvi-los, já tinham transado. O Paulão fez questão de iniciar a peleja e mal tinha pronunciado o nome da primeira da lista, eis que surge sua mulher, saída de lugar nenhum, e lhe acerta um cruzado de direita digno do Holyfield na sua melhor fase.

No dia seguinte foi trabalhar com a cara da Viúva Porcina quando acorda de manhã sem maquiagem. Durante toda a semana, sempre que lhe perguntavam o que tinha acontecido, o Paulão simplesmente dizia a mesma coisa: excesso de literatura inglesa.

Por isso também não conseguia escrever uma frase original que fosse. Dizia-se altamente influenciável. Estivesse lendo Machado de Assis, por exemplo, até nos e-mails dava um jeito de enfiar uma “cousa” qualquer no corpo da mensagem. Escrevendo sobre o futebol do domingo, ficava se gabando dos “piparotes” aplicados nos adversários; sobre o fim de semana, já não andava mais nas calçadas, mas no “passeio público”.

Muita gente é assim, não só o Paulão. Inclusive escritores. Na ficção, o caso mais famoso é o de Pedro Camacho, personagem do Tia Júlia e o escrevinhador, de Mario Vargas Llosa. Autor de radionovelas popularíssimas, Pedro Camacho não podia ler absolutamente nada sob o risco de contaminar o seu trabalho. O poeta Pablo Neruda descreve problema semelhante na sua autobiografia Confesso que vivi. Enquanto preparava um poema novo, por precaução, só lia novelas policiais do Simenon.

Também existem relatos de músicos sobre isso. Em recente entrevista, o compositor Nando Reis confessou ter às vezes a sensação de que o que acabou de compor seja plágio. Tem a história do Noel Rosa, que compôs sem querer o samba Com que roupa? com a melodia do Hino Nacional. E quem iria processá-lo? O Osório Duque Estrada?

No dia seguinte foi trabalhar com a cara da Viúva Porcina quando acorda de manhã sem maquiagem. Durante toda a semana, sempre que lhe perguntavam o que tinha acontecido, o Paulão simplesmente dizia a mesma coisa: excesso de literatura inglesa.

E até hoje não sabemos quem plagiou quem no duelo Jorge Ben/Rod Stewart sobre a abertura da canção Taj Mahal, apesar de o brasileiro, se não me engano, ter levado a melhor na justiça. Mas talvez ninguém tenha plagiado ninguém. Coincidência? Sincronicidade? Inconsciente coletivo? Pouco importa.

Apesar de o plágio, de fato, e de modo particular, por vezes ser uma questão de justiça, a arte, de modo geral, está aquém e além dessas picuinhas. Como já disse Borges (sempre ele), todas as histórias do mundo já foram escritas. O que fazemos é recontá-las, recantá-las, recompô-las. Às vezes, requentá-las.

Quem honestamente se importa com o fato de o Fausto de Goethe ter sido inspirado em um outro Fausto, escrito trinta anos antes, e o qual, por sua vez, se inspirara em outro, ainda mais antigo? Ou de o Primo Basílio, do grande Eça de Queiroz, ser muito parecido com o Madame Bovary, de Flaubert?

O que dizer então do nosso maior escritor e de seu mais bem acabado romance? Somente uma alma muito obtusa (ou muito nacionalista) para não perceber – ou assumir – que o excepcional Memórias póstumas de Brás Cubas foi essencialmente – repito: essencialmente – inspirado na Viagem a roda do meu quarto, do francês Xavier de Maistre, e, nesse caso, não na história, mas na forma de contá-la, o que, como todos sabemos, é o diferencial do incomparável Machado de Assis. Então eu me pergunto: e daí?

A citação sem aspas, sem a referência explícita e incorporada ao texto como colcha de retalhos, é um recurso bastante moderno. Raduan Nassar fez isso com precisão cirúrgica. O pastiche, a paráfrase, tudo isso é arte. Andy Warhol é arte. Como diria o Oswald de Andrade, “só me interessa o que não é meu”. E que passa a ser meu na medida em que eu o reinvento. Ah, a antropofagia!

Apesar de o plágio, de fato, e de modo particular, por vezes ser uma questão de justiça, a arte, de modo geral, está aquém e além dessas picuinhas. Como já disse Borges (sempre ele), todas as histórias do mundo já foram escritas. O que fazemos é recontá-las, recantá-las, recompô-las. Às vezes, requentá-las.

Moacyr Scliar, para quem a literatura “é estabelecer um vínculo afetivo e intelectual com pessoas”, sabia disso, e como confessou, não teria se dado ao trabalho de ir até os EUA processar o autor de As aventuras de Pi, assumidamente baseado em seu romance Max e os felinos, se aquele sujeito, um canadense, não tivesse sido tão arrogante, numa entrevista, a ponto de desfazer da capacidade criativa do escritor gaúcho.

Voltando ao Machado. Eu estava lendo “O Horla”, do Guy de Maupassant, e durante a leitura não conseguia deixar de pensar no conto “O espelho”, dos Papéis avulsos. Claro que o meu complexo de vira-lata me fazia dizer a mim mesmo o tempo todo: olha aí o Machadão plagiando outro francês… etc. No final do conto, uma surpresa: uma referência ao Brasil.

Peraí! Será? Fui conferir as datas e descobri que o conto do escritor francês era bem posterior ao do nosso fundador da Academia Brasileira de Letras. Vivas! Evoés! Fogos de artifício! Um francês copiando a nossa literatura! Em pleno século XIX! Quem diria?! E como ninguém nunca havia notado isso? Empolgado, comentei a “descoberta” com inúmeros amigos.

Algum tempo depois, revisando um artigo de uma professora de teoria literária, dei com uma sutil menção à semelhança entre os dois contos. Gelei. Meu batimento cardíaco deve ter ido às alturas do infinito. E além. Eu não era o único no mundo a ter percebido aquela semelhança. Eu não era um lobo solitário, enfim.

Tão melhor que havia junto à menção um asterisco, o que pressupunha uma indicação de leitura, talvez um livro, uma tese inteira comparando os dois textos. Desviei os olhos rapidamente para a nota de rodapé e eis que me deparo com a simples informação de que a referência ao conto de Maupassant como tendo sido influenciado pelo Bruxo do Cosme Velho se devia a um daqueles meus amigos – e que provavelmente também era da autora do artigo – com quem eu tinha compartilhado a “descoberta”.

O que significava aquilo? Plágio de um comentário de plágio? Nem uma coisa nem outra, evidentemente. Da mesma forma que Guy de Maupassant se entusiasmara com uma ideia, a do fabuloso conto do autor de Dom Casmurro, e a replicara em sua obra, a mesmíssima coisa fizera meu amigo com a possibilidade de um plágio às avessas, no sentido Europa-Brasil. De qualquer modo, enfim – e felizmente –, agora éramos três lobos solitários.

***

Mal tinha acabado de escrever este texto, mostrei os três primeiros parágrafos para a Jaqueline, minha mulher. Ela torceu o nariz: “Num sei não… essa história aí do Paulão tem um quê de alguma coisa que li outro dia. Só não sei o quê”. Esses dois quês acentuados assim tão pertinho um do outro me deixaram aterrorizado. E suspeitei até de que ela estivesse imitando alguém. Mas quem?

“O Luis Fernando Veríssimo!” Esta era a minha mulher se referindo à suspeita dela, não à minha. Até onde sei, ela ainda não tem o dom da telepatia. “Tem certeza?” Este era eu em tom de desespero iminente. Ela foi categórica: “É batata!” Xiiii, quando a Jaque diz “é batata”, é batata mesmo. Só espero não ser processado por plágio. O que diria aos meus filhos? Já não basta ter de deixar a eles o legado da nossa miséria? Que cousa!

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