Comunicações e artes

Dulcília Schroeder Buitoni

Por - Editorias: Artigos
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Dulcilia Schroeder Buitoni é professora titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP - Foto: Divulgação/Entrevendo
Dulcilia Schroeder Buitoni é professora titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Divulgação/Entrevendo

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O tema é muito antigo, mas de quando em quando volta ao contexto universitário. No universo da cultura, talvez não haja dúvidas quanto à necessidade de relacionar as comunicações e as artes. Porém, ao se pensar na divisão de áreas de conhecimento que resultam em criação de faculdades, departamentos, disciplinas, por vezes surge a ideia de distinção entre essas duas esferas humanas praticamente inseparáveis.

Quando o fluxo visual e audiovisual domina o ambiente em que vivemos, temos que pensar a interação entre comunicação, verbo, imagem, som e performance. A comunicação humana sempre envolveu alguma prática artística, seja nos desenhos pré-históricos – recuperados lindamente no documentário “A Caverna dos Sonhos Esquecidos” (2010), de Werner Herzog – seja nas danças populares, nas óperas italianas, nos livros-reportagem ou nas playlists audiovisuais que hoje fazem parte de conferências científicas em seminários.

Estamos vivendo a era da hipervisualidade. Imagens por toda parte, o tempo todo. Antes éramos atingidos por imagens produzidas por outros; agora passamos a produzir e divulgar muitas imagens, além de produzir auto-imagens.

Os circuitos de produção se retroalimentam infinitamente: imagens full time. E como nos situamos nessa cena impermanente? Como tratar comunicação e arte na universidade? Como pensar esse sujeito que já está sendo chamado de pós-espectador?

A antropologia nos diz que a música é a nossa mais antiga forma de expressão, mais antiga do que a linguagem ou a arte. Yehudi Menuhin escreve em A música do homem que a música começa com a voz e com a nossa necessidade preponderante de nos dar aos outros. Para ele, a música é o homem, muito mais do que as palavras, porque estas são símbolos abstratos que transmitem significado factual. Menuhin sugere que a música é um espelho do próprio processo de pensamento. Os ritmos repetidos e as sequências de tons ajudaram claramente a estabelecer o princípio do reconhecimento e da comparação, recorrendo à memória e ao ensaio e erro. Buscamos conhecimento para que possamos controlar o imprevisível, porque em todos nós há uma necessidade psicológica de reafirmação, para que possamos criar ordem e sentido a partir dos eventos, para dar-lhes foco e direção.

Quando o fluxo visual e audiovisual domina o ambiente em que vivemos, temos que pensar a interação entre comunicação, verbo, imagem, som e performance

A comunicação quer transmitir informações e sentimentos e, assim como a música, constrói padrões para dar sentido às ações humanas. A imagem, a indispensável imagem contemporânea traz padrões muitas vezes estereotipados, mas pode ser um instrumento de criação e de conhecimento. Temos imagens técnicas na medicina, na engenharia e em outras áreas científicas. Se essas imagens forem contaminadas pela arte, provavelmente aumentarão o conhecimento. Comunicação e arte deveriam fazer parte do currículo de todas as habilitações de uma universidade que se quer contemporânea.

O pensamento visual potencializa a informação e o conhecimento. Nascido em Moscou, Lev Manovich estudou na graduação Arte, Arquitetura e Computação; no mestrado e doutorado reuniu artes visuais, psicologia cognitiva e estudos culturais. Professor da City University of New York, é um dos grandes pesquisadores sobre a linguagem da mídia. Ele usa o termo representação com a intenção de invocar a compreensão complexa e matizada do funcionamento dos objetos culturais. Assim, há diversas tecnologias para uma tela: a pintura, o cinema, o radar, a televisão. Na representação frente à ação, temos as tecnologias de gravação de vídeo, áudio e de armazenamento digital e as de comunicação em tempo real: telégrafo, telefone, televisão, telepresença… Representação e informação se contrapõem nos novos meios: a imersão do usuário num universo de ficção versus o acesso a um corpus de informação como um site web, um buscador ou uma enciclopédia eletrônica. Em The Language of New Media (2001), Manovich usou no prólogo imagens do filme O Homem com uma Câmera (1929), de Dziga Vertov, para resumir e introduzir o conteúdo do livro. Um filme de mais de 70 anos serviu para guiar a reflexão sobre os novos meios.

A comunicação quer transmitir informações e sentimentos e, assim como a música, constrói padrões para dar sentido às ações humanas. A imagem, a indispensável imagem contemporânea traz padrões muitas vezes estereotipados, mas pode ser um instrumento de criação e de conhecimento

Outro autor também trabalha com ciência e arte em sua vida acadêmica e profissional. Josep M. Català, professor da Universidad Autònoma de Barcelona, graduou-se em História na mesma UAB, fez mestrado em Cinema na Califórnia e doutorado em Comunicação. Català é um realizador de documentários, participa como jurado em festivais, criou um Master em Documental Criativo na UAB e tem produzido importante reflexão sobre o papel das imagens na comunicação. Sua obra La imagen compleja: la fenomenología de las imágenes en la era de la cultura visual (2005) propõe o conceito de imagem complexa. Para ele, a imagem da visualidade científica, que busca a objetividade, procura ser transparente, mimética e ilustrativa. Já a imagem complexa, que passa pela arte e pela subjetividade, é opaca, propõe interpretações (não quer ser apenas mimética) e pede reflexão.

A imagem complexa, ao incluir a arte em sua composição, aponta caminhos de criação a serem utilizados, por exemplo, no fotojornalismo, nos documentários cinematográficos e televisivos ou produzidos especialmente para a web. Esse conceito também tem grande utilização nas pesquisas universitárias sobre as imagens midiáticas. Català ainda propõe a imagem interface como modelo de conhecimento. Ele vai além da interface como interação entre máquina e usuário ou a interface visual que os programas e aplicativos usam para interação com as pessoas que os usam. Nesse sentido, reforça a condição de modelo mental que implica a existência de uma nova forma de gestionar o conhecimento.

Hoje vivemos uma realidade configurada fundamentalmente pelos fluxos de informação. Todas as áreas científicas deveriam incluir as comunicações e as artes como prática e como teoria. O trabalho com as imagens empreendido pelas ciências juntamente com as comunicações e as artes poderia ser um caminho na direção de uma sociedade do conhecimento mais igualitária, mais justa, mais estética, menos consumista e menos espetacularizada.

 

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