Como o “Fora Temer” se encaixa nos jogos olímpicos do Rio

Katia Rubio – EEFE

Por - Editorias: Artigos
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Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

A estrutura do Movimento Olímpico não foi montada para ser democrática. Quando Pierre de Coubertin convidou amigos e conhecidos aristocratas para formar o Comitê Olímpico Internacional no final do século 19 não tinha a intenção de fazer daquele grupo um modelo para a sociedade.

Eles vieram de toda a Europa, tinham ligação com o esporte e desejavam competir para mostrar suas habilidades que afirmavam sua masculinidade. Não desejava fazer política. Acreditava que era possível conduzir o mundo do esporte à margem dos conflitos e interesses internacionais.

Estruturado o COI (Comitê Olímpico Internacional) em 1894, logo Coubertin percebeu que sua empreitada não seria tão fácil quanto imaginava. Para realizar os jogos olímpicos seria necessário conceder, negociar, conchavar e praticar as mesmas estratégias que se empregam nas relações internacionais como um todo.

Já na organização dos jogos olímpicos de 1896, o barão praticou toda a sorte de política para realizar aqueles que viriam a ser os primeiros jogos da era moderna. Entregou a presidência do COI a um grego e aceitou a competição em Atenas, concedendo assim aos mentores dos jogos a honra dessa realização.

Diante da falta de dinheiro para a realização das obras necessárias, contou com o apoio de um armador grego para que tudo acontecesse a contento.

Mas as concessões não pararam por aí. Ao longo do século 20 foram inúmeras as vezes em que se afirmou que política e esporte não se misturavam. Ainda assim, atletas só podiam participar dos jogos olímpicos sob a bandeira de Estados Nacionais, cujas fronteiras se mostraram fluidas por causa das duas Grandes Guerras ou de guerras regionais que reconfiguraram mapas diversas vezes.

Estruturado o COI em 1894, logo Coubertin percebeu que sua empreitada não seria tão fácil quanto imaginava. Para realizar os jogos olímpicos seria necessário conceder, negociar, conchavar e praticar as mesmas estratégias que se empregam nas relações internacionais como um todo

Esse discurso também foi mantido mesmo quando países resolveram boicotar a competição por causa do apartheid na África do Sul, pelo reconhecimento de Taiwan como país ou pela participação em guerras. O fato é que mesmo diante da negação de um fato constatável os mandatários do Movimento Olímpico mantiveram o discurso de distanciamento entre esporte e política até chegar ao século 21.

Com muita resistência as mulheres pouco a pouco foram sendo aceitas nas competições, um gesto absolutamente político, embora disfarçado numa questão de gênero. Até mesmo o profissionalismo, tão duramente defendido pelos puristas olímpicos, caiu por terra no final dos anos 1980, indicando ao mundo que o esporte era um negócio e uma profissão como quaisquer outros em um mundo globalizado. Mas a política era ainda um tema tabu.

Demorou mais de um século para que o discurso e a prática sobre esporte e política fossem alterados. E o cenário para a apresentação dessa condição aconteceu no Rio de Janeiro, em 2016.

Sem dúvida, isso se dá em função de Thomas Bach, que sem muito barulho assumiu a presidência do COI e resolveu restabelecer a ordem, no mais nobre espírito olímpico. Preocupado com os rumos que a entidade tomava desde a década de 1980 pôs-se a trabalhar buscando adequar o discurso e a ação olímpica aos novos tempos.

Atento às negociações que ocorrem para a escolha das sedes olímpicas de verão e de inverno, que facilitam e ampliam a corrupção já estabelecida, promoveu um movimento pela transparência desse processo e de outras que envolvem a poderosa marca com os cinco anéis.

À frente de sua primeira edição olímpica de verão como presidente mostrou ao mundo sua disposição de falar de política ao permitir que refugiados com índices conquistados viessem competir mesmo sem a bandeira de seus países.

Demorou mais de um século para que o discurso e a prática sobre esporte e política fossem alterados. E o cenário para a apresentação dessa condição aconteceu no Rio de Janeiro, em 2016. (…) Sem dúvida isso se dá em função de Thomas Bach, que sem muito barulho assumiu a presidência do COI e resolveu restabelecer a ordem, no mais nobre espírito olímpico

Fato inédito na história, essa decisão abre as portas para uma reconfiguração na geopolítica olímpica submetida a uma camisa de força que passa pela organização dos Comitês Olímpicos Nacionais e Federações e Confederações nacionais e internacionais, duramente criticadas nos últimos anos por conta de gestões centralizadoras e corruptas que levam a um descrédito moral do Movimento Olímpico como um todo.

Chama também atenção a homenagem prestada aos atletas e técnicos mortos no atentado à Vila Olímpica de Munique, em 1972. Solicitação feita desde o incidente pela família dos falecidos e nunca antes atendida, era considerada pelos presidentes anteriores como um risco ao discurso de que política e esporte não se misturam. Justamente um alemão permite a homenagem durante a realização dos jogos no Rio de Janeiro e permite que familiares das vítimas se manifestem, concedendo à cerimônia uma clara conotação política ao incidente passado e ao ato em si.

Importante frisar a postura de Thomas Bach ao longo do processo de impeachment que antecedeu os jogos. Foi polido em todas as vezes que foi abordado sobre o tema e procurou ser positivo quando indagado sobre a influência de todo aquele processo na organização e realização dos jogos.

Mais preocupado que ele estavam as autoridades brasileiras que tentaram impedir que as manifestações relacionadas com o momento político brasileiro invadissem as arenas. Tanto assim que o Comitê Rio 2016 entrou na justiça para fazer valer a Lei da Olimpíada, que dispunha sobre as condições para o uso de bandeiras, cartazes ou manifestações nos locais de competição.

Embora ressalvasse o direito constitucional ao livre exercício de manifestação e à plena liberdade de expressão em defesa da dignidade da pessoa humana, espectadores que se manifestaram nos locais de competição nos primeiros dias foram expulsos e correram o risco de pagar multa de R$ 10 mil, até que uma liminar pôs por terra a proibição.

Ainda assim assisti a um episódio com um de meus orientandos, que levava um adesivo “Fora Temer” em seu boné. Passou pelo segurança de um recinto sem que fosse percebido o desagravo.

A “desfeita” só foi notada no momento da execução do hino nacional e prontamente começou um movimento de repressão percebido nos gestos, olhares e conversas à boca pequena. Tudo me fez crer que se ele ousasse levantar a voz em algum momento da fala oficial seria retirado à força do local, fato que não chegou a ocorrer.

Ou seja, enquanto nas instâncias superiores do olimpismo os ventos sopram rumo ao século 22, nas esferas nacionais ainda prevalece o ranço da política local sustentada nos jogos de poder pautados no casuísmo e interesses próprios.

 

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