Cardeal da misericórdia – dom Paulo Evaristo Arns morre aos 95 anos

Maria Luiza Marcílio – CDH

Por - Editorias: Artigos
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Professora e historiadora Maria Luiza Marcílio - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Maria Luiza Marcílio é professora Titular do Departamento de História da FFLCH-USP e presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP de 1997 a 2010 – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
A misericórdia, condição fundamental da Bíblia, chave da vida cristã, opção pelos pobres, pela justiça em face do sofrimento de inocentes, pela esperança por tempos melhores e mais plenos de amor, centro de defesa e promoção dos direitos humanos, tudo isso está num dos capítulos mais fortes do Evangelho: “Felizes os que têm espírito de pobre, porque deles é o reino dos céus” e ainda, “Felizes os famintos e sedentos de justiça, porque serão saciados”(Mateus-5:3 e 6). Esses foram o móvel que norteou a vida toda do cardeal Arns.

De fato, dom Paulo praticou com coragem e grande força espiritual e moral essas bases cristãs e num dos períodos mais duros da nossa história.

O Brasil conheceu o sistema totalitário brutal, que atingiu milhares de vítimas – de mortos e de torturados – durante o período de ditadura militar.

A Universidade de São Paulo pode se orgulhar de ter compreendido a grandeza da personalidade do cardeal. Em 2007, o Prêmio USP de Direitos Humanos, que sua Comissão de Direitos Humanos criou e mantinha então, foi concedido a dom Paulo Evaristo Arns.

Perante essa situação, que constrangia ao silêncio o nosso povo e os nossos intelectuais, dom Paulo Evaristo não se calou, não ficou inerte, não negligenciou a mensagem bíblica e da misericórdia. Logo no início de sua gestão vendeu, por milhões de dólares, o majestoso Palácio Episcopal, instalado no centro da cidade, repleto de jardins magníficos e de vasto terreno. Com essa enorme soma comprou terrenos nas mais pobres periferias, onde instalou salas de utilidade múltipla, desde escolas, centros de saúde, de lazer, de reuniões e quanto mais, dando aos seus moradores o meio de que não possuíam, e nessas instalações  criou as Comunidades Eclesiais de Base.

Foi o grande defensor e promotor dos direitos humanos no País. Nesse setor a Universidade de São Paulo pode se orgulhar de ter compreendido a grandeza da personalidade do cardeal. Em 2007, o Premio USP de Direitos Humanos, que sua Comissão de Direitos Humanos criou e mantinha então, foi concedido a dom Paulo Evaristo Arns. Se ele não pôde vir pessoalmente recebê-lo das mãos do reitor e nossas, por razões de saúde, teve sua irmã, a dra. Zilda Arns – que foi a primeira agraciada com o mesmo Prêmio USP, em 2000– para representá-lo.

Esse franciscano humilde foi decisivo para acabar com o ditadura militar do Brasil. Com a queda da ditadura, dom Paulo não parou: organizou e escreveu o livro que perdura: Brasil Nunca Mais, com documentos que tirou dos próprios arquivos militares, foi o criador do Movimento Nacional de Direitos Humanos e fundador da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo.

Dom Paulo Evaristo Arns foi e sempre será a figura mais importante do século 20 brasileiro.

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