Brasil vai bem nas Olimpíadas internacionais de Física

Airton Deppman é professor do Instituto de Física da USP; Munemasa Machida é professor aposentado da UNICAMP

Por - Editorias: Artigos
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Airton Deppman – Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Munemasa Machida – Foto: Arquivo pessoal
É notório o nível insatisfatório do ensino brasileiro, que tem se refletido nas comparações internacionais que constantemente retratam a qualidade do aprendizado de nossos estudantes entre os piores analisados. Entre as mais graves mazelas geradas pelo descaso histórico que nossa sociedade manifesta nesse quadro, encontra-se o ensino de Física no nível médio, onde à baixa qualidade se alia a carência de profissionais formados na área. Nunca é demais lembrar a importância dessa matéria na sociedade moderna, onde o uso de equipamentos de sofisticada tecnologia se difunde cada vez mais rapidamente.

A má formação geral nessa área leva não só à inépcia para o desenvolvimento de tecnologia nacional de ponta em nível competitivo, como também à incapacidade, na população em geral, de compreender até mesmo o uso das ferramentas disponibilizadas por essa tecnologia em sua totalidade. Assim, não só deixamos de formar profissionais capazes de criar novas tecnologias, também colocamos no mercado milhões de consumidores inaptos a fazer as melhores escolhas entre os equipamentos disponíveis no mercado.

O quadro geral é desolador, mas aqui e ali despontam sinais de esperança, mas também de alerta. O Brasil tem participado, desde o início do século, de olimpíadas internacionais de Física, onde seleções nacionais dos melhores estudantes da área participam de exames com alto grau de dificuldade, tanto teóricos quanto experimentais. Tradicionalmente o Brasil participa da Olimpíada Iberoamericana de Física (Ibero), onde competem estudantes de países da América Latina, Caribe e Península Ibérica, e também da Olimpíada Internacional de Física (OIF), envolvendo países de todo o mundo.

Para participar desses eventos, os estudantes que competem nas olimpíadas brasileiras, Olimpíada Brasileira de Física (OBF) e Olimpíada Brasileira de Física das Escolas Públicas (OBFEP) são selecionados a cada ano. Os oitenta melhor classificados em todo o país passam por provas seletivas, sendo que os nove primeiros são selecionados para as competições internacionais: os cinco primeiros classificados vão para a OIF e os demais quatro para a Ibero. Esses nove alunos passam por treinamentos específicos por cerca de quatro semanas em importantes centros de pesquisa, como USP, UNICAMP e ITA, LNLS, INPE, entre outros, antes de participarem das respectivas competições. Este ano, em especial, o time brasileiro foi convidado a participar da Primeira Olimpíada Europeia de Física, realizada em Tartu, Estônia, competindo ao lado de vários países europeus e outros dois países convidados: Singapura e Turquistão. Essas competições colocam nossos melhores alunos de Física ao lado dos melhores estudantes de outros países, permitindo assim um outro tipo de comparação do nosso ensino em relação ao de outros países.

Nas tabelas abaixo apresentamos os resultados obtidos pelos times brasileiros nessas competições internacionais, permitindo uma análise da evolução histórica da participação brasileira. Os resultados da recente participação na Olimpíada Europeia aparecem junto com os resultados da OIF para facilitar a comparação. Nota-se inicialmente a participação continuada nessas duas competições a partir de 2000 (Ibero) e 2001 (OIF), o que tem contribuído para uma evolução positiva do desempenho obtido. Os quadros apresentam os prêmios recebidos pelos estudantes brasileiros, que se classificam como: menção honrosa, medalhas de bronze, prata e ouro. A classificação dos estudantes para cada prêmio varia ligeiramente de uma competição a outra e de um ano a outro, mas aproximadamente é definida por: menção honrosa para os 50% melhores, medalha de bronze para os 25% melhores, medalha de prata para os 13% melhores, medalha de ouro para os 7% melhores. Incluímos os resultados da competição europeia na tabela da OIF para facilitar a comparação.

O que se depreende das tabelas de resultados é que nas duas competições o Brasil apresentou uma notável evolução. Na Ibero o crescimento foi mais rápido e os estudantes brasileiros têm consistentemente se colocado entre os melhores da competição. O fato de ser uma olimpíada entre países com culturas e níveis sócio-econômicos mais uniformes deve ter uma influência nesses resultados, mas quando olhamos a tabela referente à OIF também notamos uma melhora constante nos resultados obtidos que, embora mais lenta do que na Ibero, não deixa de ser impressionante, principalmente ao se levar em conta que a competição se dá, aqui, com estudantes de países de alto desenvolvimento social e econômico e com culturas que incentivam a formação nas Ciências Exatas. De fato, muitos desses países aparecem no topo de classificações da qualidade de ensino.

A classificação dos estudantes para cada prêmio varia ligeiramente de uma competição a outra e de um ano a outro, mas aproximadamente é definida por: menção honrosa para os 50% melhores, medalha de bronze para os 25% melhores, medalha de prata para os 13% melhores, medalha de ouro para os 7% melhores. Incluímos os resultados da competição europeia na tabela da OIF para facilitar a comparação

São vários os fatores que levam à melhora dos resultados obtidos: além do esforço de familiares e do empenho dos professores do Ensino Médio desses alunos, que certamente são os mais importantes, o apoio da Sociedade Brasileira de Física (SBF) para a organização das olimpíadas nacionais e para o processo seletivo que forma o time de estudantes brasileiros para as olimpíadas internacionais tem sido determinante. É importante mencionar a contribuição imprescindível do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) que tem permitido a realização de todos esses eventos. Além disso, as escolas dos alunos participantes também contribuem com parte dos custos.

Ao longo do tempo, diferentes formas de organização desse esforço foram adotadas, e hoje existe um comitê organizador, do qual os autores fazem parte, que coordena não só a realização das competições nacionais mas também as seletivas e a preparação para a participação nos eventos internacionais. Consideramos que o esforço continuado para realizar a OBF e a OBFEP com nível cada vez maior de dificuldade nos problemas propostos, com provas teóricas e experimentais, tem sido fator relevante para o avanço observado nos resultados brasileiros. A manutenção dessa trajetória só será possível com a continuidade do apoio recebido.

Há quem critique a realização das olimpíadas julgando que é elitista. No entanto, os dados acumulados até agora evidenciam o contrário, pois grande parte dos alunos que se classificam para as competições internacionais são do nordeste do país, e o espectro social é amplo. É verdade que poucos estudantes de escolas públicas conseguem essa classificação, sendo nesses casos geralmente oriundos de escolas militares. Aqui vemos o sinal de alerta, pois um grande número de estudantes de alto potencial tem seu desenvolvimento frustrado pelas condições desfavoráveis do ensino brasileiro, em especial do ensino público. Num país de tantos desperdícios, este é um dos mais graves.

Os efeitos dessas competições na qualidade do ensino médio não são diretos, já que não é esse o objetivo principal das olimpíadas. Os reflexos porém são claros: vemos que estudantes brasileiros, quando recebem os incentivos adequados e o ensino de boa qualidade, brilham mesmo na comparação com estudantes dos países mais avançados; esses bons resultados obtidos estimulam a participação de mais estudantes nas competições brasileiras; um número maior de escolas públicas ou particulares apresentam interesse em participar; esses fatores aumentam o interesse dos alunos pela Física e melhoram a qualidade do ensino dessa disciplina.

Outro aspecto é que o desempenho dos melhores alunos nessas competições está, de fato, relacionado a uma formação sólida. A este respeito, é importante mostrar que a Primeira Olimpíada Universitária de Física da América Latina e do Caribe, realizada este ano em Havana (Cuba), contou com a participação de estudantes brasileiros de diversas universidades do país. O primeiro colocado nessa competição foi Leonardo Lessa, estudante do Instituto de Física da USP, e que no ano anterior recebeu medalha de bronze na sua participação na OIF. Marina Maciel Ansanelli, também do IFUSP e que havia participado no ano anterior da Ibero recebendo medalha de ouro, foi a única mulher a receber medalha, ficando na 25ª colocação dessa competição.

 

 

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