As listas de Boris Schnaiderman

Gutemberg Medeiros – ECA

Por - Editorias: Artigos
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Gutemberg Medeiros é doutor em Ciência da Comunicação pela ECA - Foto: Atílio Avancini

Gutemberg Medeiros é doutor em Ciência da Comunicação pela ECA – Foto: Atílio Avancini

 

Outro dia conversava com Francisco Araújo – competente tradutor do russo de Lieskov e Chalámov e vertendo Zamiatin – e falei da heroica atividade de tradutor de Boris Solomônovitch Schnaiderman, especialmente em sua primeira empreitada. Nada menos que Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski.

O que deixou Francisco mais surpreso foi saber que Boris não tinha dicionário de russo em casa. Ele realizava listas de palavras e de Copacabana embarcava em bonde “camarão” até a Cinelândia a troco de consultar o único dicionário de russo na então capital federal, em 1943, na Biblioteca Nacional.

Boris abria o dicionário russo-francês e outro francês-português. Várias viagens fez de bonde para decodificar estas listas. Hoje, além de hábil dicionário em papel, Francisco tem à sua disposição outros materiais de apoio em sites russos. Também surpreendente é que essa foi a primeira empreitada de Boris no mundo da tradução, justamente em obra tão vasta – tanto em tamanho físico quanto em complexidade. Paulo Bezerra, que publicou sua versão pela Editora 34, declarou ter se servido de várias soluções do jovem Boris.

Lembrar essas e outras passagens em toda a vida de Boris pode parecer mera curiosidade ao leitor desavisado, mas revela momentos representativos da história editorial e mesmo da cultura brasileira.

Em março último estive com Boris e, pela primeira vez em anos, me ocorreu perguntar o motivo de justamente ter escolhido Karamazov para traduzir. Com a sua objetividade costumeira, respondeu “não escolhi” e ponto. Então perguntei como foi a ida à Editora Vecchi e como se deu o acerto do trabalho.

O que deixou Francisco mais surpreso foi saber que Boris não tinha dicionário de russo em casa. Ele realizava listas de palavras e de Copacabana embarcava em bonde “camarão” até a Cinelândia a troco de consultar o único dicionário de russo na então capital federal, em 1943, na Biblioteca Nacional.

Essa casa publicadora era de grande porte, mas de cunho popular, de grandes tiragens. E foi uma das que investiram pesado no boom de literatura russa derivada da entrada da ex-URSS entre os aliados contra o eixo alemão, italiano e japonês. Boris não tentou a José Olympio, a mais importante da época, por ser mero estreante desconhecido. Bateu às portas da Vecchi levando a proposta de verter do original a trilogia autobiográfica de Maksim Gorki (Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades).

O editor achou a proposta interessante, mas a bola da vez era Dostoiévski. Tinham editado vasta coletânea de Diário de um escritor e estendeu a versão espanhola dos Karamazov. Ele aceitou, mas desde que fosse do original, e fecharam o acordo. Tudo por mera determinação, pois ganharia o mesmo traduzindo do original ou espanhol. Como não havia mão de obra qualificada para verter do russo, para a editora não fazia a menor diferença.

A determinação do estreante logo se transformou em angústia quando mal pisou na calçada, pois não tinha edição em russo da obra acordada. E mais, nunca lera Dostoiévski. Apenas conhecia Gorki, Liérmontov e Gógol, que seus pais trouxeram de Odessa na bagagem da família. Foi ter à Biblioteca Nacional e nada. Passou dias pelo Rio de Janeiro até que encontrou um grupo de exilados russos que mantinham entre eles biblioteca circulante e havia um exemplar em russo dos Karamazov.

A determinação do estreante logo se transformou em angústia quando mal pisou na calçada, pois não tinha edição em russo da obra acordada. E mais, nunca lera Dostoiévski. Apenas conhecia Gorki, Liérmontov e Gógol, que seus pais trouxeram de Odessa na bagagem da família.

Após as listas de palavras e das idas e vindas de bonde, Boris concluiu a tradução e a entregou à editora. Meses depois e antes de embarcar para a 2a Guerra como pracinha da FEB, viu as livrarias do centro do Rio de Janeiro tomadas pela sua tradução, seguida de sucesso de crítica. Ele comprou um exemplar – sim, nem o exemplar do tradutor a editora disponibilizava – e correu para casa lê-lo. Para sua surpresa e revolta, viu sua tradução completamente desfigurada.

Dostoiévski tinha um estilo completamente próprio que o afastava do beletrismo da sua época, a ponto de críticos o acusarem de escrever mal. As primeiras traduções francesas do final do século XIX “copidescavam” sua carpintaria textual para o gosto da época. E o mesmo foi feito com a tradução de Boris. No dia seguinte, foi tirar satisfações na editora. Em resposta, disseram que o Senhor Carvalho – o revisor da casa e o mais categorizado da cidade, refugiado da Espanha franquista – afirmara que a tradução estava muito mal composta e a retrabalhou para o estrito português castiço.

Boris teve de engolir o desaforo e fez outras traduções para a Vecchi. Anos depois, passou a colaborar com versões de Dostoiévski para a coleção da José Olympio. Ele lembra que o editor o interpelou em uma recepção o motivo de não ter-lhe oferecido a versão de Karamazov. Não gostou da resposta e encerrou a conversa garantindo a perda da ótima oportunidade para ambos.

Para a editora Vecchi, o único Gorki em que Boris trabalhou foi o romance Os Artamonov. A casa antes encomendou a versão a Galvão Queiroz, mas fez apenas metade e chamaram Boris para resolver o problema. Ele cotejou e corrigiu com a edição em russo a versão do colega e fez a segunda metade, ambas as partes a partir do original. Na página de rosto, vê-se o nome dos dois tradutores com a informação de tradução direta.

Não apenas como tradutor, mas Boris foi decisivo ao fundar e manter o curso de Russo da Universidade de São Paulo e ao colaborar na profissionalização dessa atividade no Brasil. Hoje, as condições de trabalho do tradutor são bem diferentes das que viveu na década de 1940, mas há muito que melhorar. De toda forma, pelo menos, não há mais os bondes e listas de palavras.

 

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