Abordagem da orientação sexual nos cursos de Odontologia

Carla A. Damante é docente da Faculdade de Odontologia de Bauru; Rafael Ferreira é doutorando da FOB

Por - Editorias: Artigos
Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail
Carla Andreotti Damante é professora de Periodontia na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP) – Foto: Divulgação

.

O ingresso do jovem na Universidade é um dos momentos mais importantes para o seu desenvolvimento profissional e pessoal. Uma parcela desses graduandos acaba mudando de cidade, começa a vivenciar experiências de residências compartilhadas (como em repúblicas ou em moradias estudantis) ou individuais (sem o contato com os pais e/outras pessoas), além de começar a traçar os pilares profissionais.

A Universidade é um local conhecido devido à pluralidade cultural, racial e sexual. Diante de tantas opções, podem existir conflitos intra e/ou entre indivíduos. Nesse cenário, a Universidade surge como interlocutor necessário em promover a discussão, promoção de informações e permitir um ambiente igualitário. As questões emblemáticas na Universidade são diversas: “Como estão recebendo, tratando e formando os alunos?”; “Estão formando indivíduos isentos de preconceitos?”; “O ambiente universitário promove igualdade entre os indivíduos?”; “O que pode ser feito para melhorar a Universidade?”. A Universidade surge como um importante intermediário da “família-sociedade”. Independentemente de quais crenças, virtudes ou conceitos o aluno carregue consigo. Cabe a ela devolver à sociedade um profissional generalista que saiba respeitar as pluralidades (independentemente de quais sejam) e promover inclusão em todas as parcelas da população.

Um ambiente acolhedor e que proporcione o desenvolvimento global do aluno é fundamental para o desenvolvimento de bons profissionais e cidadãos conscientes. A forma como o aluno se expressa, pensa e age deve estar incluída dentro de um cenário de liberdade de expressão.

A formação integral do indivíduo é um processo contínuo, iniciada na infância e desenvolvida também durante a vida universitária. Muitas pessoas podem aproveitar-se do distanciamento do núcleo familiar para desenvolverem questões que até então eram repreendidas ou até mesmo desconhecidas, tais como correspondentes à sua sexualidade e/ou identidade de gênero.
.

Itens como a identidade de gênero e a opção sexual são questões muito importantes e que merecem destaque nas instituições de ensino superior. De forma bem simplificada, “identidade de gênero” é como o indivíduo se vê/sente.

.
As ações no ambiente universitário devem ocorrer para a promoção de respeito ao próximo. Tais ações devem ser desenvolvidas principalmente nos cursos em que há o contato com a população, como os cursos na área da saúde, em que os alunos terão contato com uma infinidade de identidades de gênero e orientações sexuais. Medidas como grupos de discussões, aulas de psicologia e de antropologia são ferramentas importantes nesse processo. A disseminação de informação é um dos primeiros passos para a formação de um ambiente harmônico e sem preconceitos.

Itens como a identidade de gênero e a opção sexual são questões muito importantes e que merecem destaque nas instituições de ensino superior. De forma bem simplificada, “identidade de gênero” é como o indivíduo se vê/sente. Seu gênero pode ser de acordo com o mesmo sexo com que nasceu (portanto, um indivíduo cisgênero) ou ser do sexo contrário (logo, um indivíduo transgênero). Já a orientação sexual é como o indivíduo se relaciona afetivamente/sexualmente.

Esses indivíduos compõem uma parcela da população representada, de modo global, pela sigla LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais). Atualmente, outras letras foram inseridas para melhor representação, como mais duas letras “T” para travestis e transgêneros, “I” para intersexuais, “S” para simpatizantes e um sinal de + é por vezes adicionado ao final para representar qualquer outra pessoa que não seja coberta pelas outras iniciais. As letras “P”(pansexuais), “Q” (queer, que se refere às pessoas que questionam a sua sexualidade, como uma forma de crítica a um modelo de hegemonia e aos seus próprios binarismos hetero/homo, homem/mulher) e “A” (assexuados) também podem ser acrescentadas na sigla, embora essas formas sejam, em geral, menos utilizadas aqui no Brasil.

Deve-se reforçar que as terminologias e questões envolvendo gênero e orientação sexual merecem bastante cuidado ao serem abordadas, pois podem representar “rótulos“ e suas compreensões vão além dos esclarecimentos didáticos e sociais. Entretanto, as particularidades devem ser trabalhadas para que não exista qualquer forma de preconceito.

Uma atitude observada na Semana de Recepção aos Calouros deste ano de 2017 pela USP foi que, diferentemente do que era postado nos anos anteriores, o slogan da campanha foi: “Sejam bem-vindxs”. A linguagem neutra foi utilizada para incluir todas as identidades de gênero e reforçar o combate a estereótipos na mensagem voltada a todos os alunos e alunas da USP. A substituição de uma simples letra promove uma grande mudança e mostra a importância que a Universidade tem em promover um ambiente igualitário e de liberdade de expressão.

Atualmente tem-se buscado compreender não somente “o que é ensinado”, mas as atenções têm sido voltadas aos alunos para compreender como o mesmo se desenvolve. Para isso, é muito importante que o jovem esteja em harmonia consigo e com o ambiente que vivencia.

O meio científico presenciou a necessidade da abordagem dessa temática e que se comprovou com a presença de algumas pesquisas. Especificamente, dentro da área de Odontologia, se procurarmos por artigos com palavras-chave como “orientação sexual”, “LGBT”, “educação odontológica”, “competência cultural” e “estudantes de odontologia” encontramos 8 artigos. O número de artigos é ainda baixo, porém observa-se uma ação, mesmo que discreta, em atitudes para tentar melhorar e promover um ambiente universitário mais acolhedor. Até o momento, não se encontrou nenhum artigo/pesquisa relacionado na área de Odontologia na literatura nacional, diferentemente do que já aconteceu com a Medicina, a Enfermagem e outras áreas da saúde. Portanto, essa abordagem deve ser incentivada e ampliada em todos os cursos, principalmente os da área da saúde.

O ambiente universitário não deve promover ou ser conivente com medidas ou ações machistas, homofóbicas, xenofóbicas ou de qualquer outra forma de discriminação. Para isso, é muito importante que existam ou sejam criados grupos de discussão e de apoio a todos os indivíduos no ambiente universitário, a fim de se promover o desenvolvimento global do aluno e um ambiente que promova a liberdade de expressão a todos. Programas e grupos como USP e as mulheres, USP e as diversidades ou a Comissão contra a Violência de Mulheres e Gênero, sendo esta última presente no campus da USP-Bauru, são iniciativas importantes e que merecem destaque ao promoverem informações e um serviço de denúncia e de ajuda a essa parcela de “alunxs”.

Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail