“À nous deux maintenant” – Neymar e os destinos de sua carreira

José Carlos Marques é integrante do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas) do Departamento de História da FFLCH-USP

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José Carlos Marques – Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Ao final do romance Le Père Goriot (O Pai Goriot, 1835), do romancista francês Honoré de Balzac (1799-1850), o jovem Eugène de Rastignac, do alto do cemitério Père-Lachaise, volta-se para a cidade de Paris e profere a frase que se eternizou entre a rica produção balzaquiana: “À nous deux maintenant” (o que poderíamos traduzir livre e popularmente como “Agora somos tu e eu”  – ou, no jargão futebolístico brasileiro, “Agora é nóis”). Por detrás da expressão, comparecem o atrevimento e a ambição de Rastignac, que lança assim um ousado desafio à cidade que buscará conquistar. Vindo do Sul, o jovem rapaz mistura em si o provincianismo de quem não pertence à capital e o arrivismo típico daqueles que não medem esforços para executar o que hoje chamamos de alpinismo social – ou a busca pela inserção no mundo das celebridades.

Rastignac reaparecerá em diversas outras obras de Balzac, dentro do projeto do escritor de retratar “A Comédia Humana” (“La comédie humaine”) por meio do conjunto de sua vasta obra em prosa. É muito provável que o jogador Neymar nunca tenha lido o romance Le Père Goriot, nem conhecido as peripécias de Eugène de Rastignac. É pena, porque o astro da Seleção Brasileira e do Paris Saint-Germain provavelmente perceberia várias semelhanças entre o projeto de um e de outro – e, mais do que isso, possivelmente ele aprenderia algumas lições que o ajudariam a se comportar com mais habilidade perante a exigente sociedade francesa.

Tal qual o personagem de Balzac, Neymar chegou a Paris como se fosse um provinciano vindo do Sul. Sem falar francês fluentemente (após cerca de oito meses na França o jogador ainda não demonstrou ter ganhado total proficiência no idioma gaulês), o astro parece não conseguir lidar com a voracidade da imprensa europeia, nomeadamente com o apetite devorador do diário esportivo L’Équipe, o qual tem anunciado crises quase que semanais em torno do craque brasileiro (a leitura da obra de Balzac também ajudaria Neymar a compreender melhor o funcionamento dos jornais).

Entretanto, ao contrário de Rastignac (que assumiu para si próprio e de forma individual a árdua batalha contra a sociedade parisiense), Neymar não consegue mostrar personalidade em assumir os desafios que se impõem quase que cotidianamente à sua frente. Contratação mais vultosa da história do futebol, ele já sabia há alguns dias, em virtude da recente lesão sofrida no pé direito, que não disputaria a partida mais valiosa do PSG dos últimos tempos: o segundo confronto eliminatório contra o Real Madrid pelas quartas-de-final da Liga dos Campeões, no dia 6 de março de 2018. E, involuntariamente, o jogador se lançava numa espiral autofágica: classificando-se o PSG, haveriam de falar que Neymar não faz falta ao elenco; sendo eliminado o PSG, haveriam de falar que Neymar está sempre ausente dos momentos decisivos de seus times, como no caso do Brasil 1 x 7 Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

Para além disso, o jogador transferiu-se para o PSG em busca do protagonismo que não conseguia ter no Barcelona, e aí consegue misturar-se ao arrivismo do próprio PSG, clube milionário e novo-rico que ainda não se constituiu como um dos grandes europeus (vemos que, aqui, tais projetos de ascensão equivalem aos de Rastignac). Neymar escolheu ainda o PSG devido à grande quantidade de atletas brasileiros que fazem ou faziam parte da equipe, casos de Daniel Alves, Marquinhos, Thiago Silva, Thiago Motta e Lucas (este último migrou posteriormente para o Tottenham da Inglaterra). Não bastasse isso, rodeou-se de uma infinidade de “parças” em Paris, representados por familiares, amigos, assessores, agentes, amigos dos amigos, no que se convencionou chamar de “estafe do jogador”. Em meio a tanta proteção, ele não se faz ouvir e não se impõe como astro.

Não se ouviu a voz de Neymar sobre a necessidade ou não de ser submetido a uma cirurgia no pé direito, algo que acabou por ocorrer no último dia 3 de março. Falaram por ele o pai, o médico da Seleção Brasileira, o médico do PSG, o técnico do PSG, a imprensa, entre outros. Para o PSG, obviamente, a cirurgia poderia ser evitada e o jogador provavelmente voltaria aos gramados em cerca de duas semanas, pronto para colaborar com o clube no resto da temporada. Para a Seleção Brasileira, contudo, importava partir logo para a cirurgia, a fim de evitar vulnerabilidades no pé do jogador. De quebra, devido à longa parada a que será submetido, Neymar poderá poupar-se visando a Copa do Mundo, justamente no momento em que o futebol europeu entra nas fases decisivas de seus torneios. Diante dos dois cenários, porém, não se ouviu a voz do jogador para saber o que ele pensava a respeito.

Neymar também não se pronunciou após se ter indisposto por mais de uma vez com colegas de equipe, como o uruguaio Cavani, ou com os adversários que ele continua a provocar de maneira desrespeitosa, como na vitória sobre o Rennes por 3 x 2, em janeiro de 2018 pelo Campeonato Francês, quando o craque estendeu a mão para que Hamary Traoré se levantasse do gramado, mas logo recolheu o braço, deixando o adversário no vácuo.

Também não se ouviu a voz de Neymar quando ele foi confrontado por jornalistas sobre diferentes temas contemporâneos, como a questão da Catalunha (quando ainda atuava no Barcelona), sobre o racismo na Rússia (palco do próximo Mundial), sobre a crise política no Brasil, sobre ser ou não o melhor do mundo etc. Neymar não fala por si, não se assume, não assume posturas corajosas. Vive a eterna síndrome de Peter Pan ao recusar-se a assumir o papel de pessoa madura e senhora do próprio destino.

Tudo indica que Neymar estará recuperadíssimo para disputar a Copa do Mundo deste ano, ao contrário do que ocorreu com inúmeros craques brasileiros que foram cortados ou chegaram à competição longe da melhor forma (Clodoaldo em 1974; Rivelino em 1978; Careca em 1982; Zico em 1986; Romário em 1990 e 1998; Ronaldo Fenômeno em 2006; Kaká em 2010).

Sob este aspecto, o atual astro do escrete canarinho poderá nos fazer lembrar do mesmo Ronaldo Fenômeno, que em 2002 passou por um longo processo de recuperação, até consagrar-se com o título mundial no Japão. Resta saber se Neymar repetirá todo esse enredo e se estará presente à decisão da Copa da Rússia, no dia 15 de julho de 2018. Se ele subir até as tribunas do Estádio Lujniki em Moscou para levantar a taça do mundo, estará inaugurando uma nova fase em sua carreira. E bem que ele poderia olhar para a capital russa como se estivesse olhando para Paris a fim de repetir a expressão fetiche de Rastignac, o “À nous deux maintenant”, como forma de crescer e de partir definitivamente para a conquista do público francês e mundial.

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